A Rosa e o Marketing Político
Na véspera do dia das mães, a floricultura estava repleta de flores lindas, com rosas, margaridas, lírios e violetas. Uma orquídea ainda havia para quem quisesse algo mais requintado. O emocionante foi a seqüência de diálogos das rosas.
Disse a rosa mais velha para um grupo ainda jovem. “Aquele rapaz que me comprou é bem simpático. Não é?”. Uma outra rosa, acompanhada pelo balançar de folhas de sua turma, concordou. “É, ele parece um policial que está bastante feliz”.
A rosa escolhida não se fez de rogada e explicou a situação. O rapaz não tinha muito dinheiro, afinal de contas como policial ganha um salário reduzido. Mas ele não queria deixar de dar um presente para a mãe querida, numa data tão especial. E comprou meia dúzia de rosas das mais bonitas e abertas.
Como o rapaz estaria de plantão durante a madrugada e a manhã de domingo, convenceu o dono da loja a entregar o presente num endereço próximo. Escreveu um cartão com palavras ternas, numa caligrafia desenhada pela ansiedade, e preparou-se para ligar na manhã de domingo. Queria conferir a surpresa que o ato de amor iria gerar em sua mãe.
O dono da loja até incluiu uma rosa a mais no ramalhete, como forma de colaborar com a iniciativa tão carinhosa daquele cliente policial. Recebeu o valor a ser pago em notas amarfanhadas, contadas com bastante cuidado e atenção. E preparou-se para entregar o presente logo pela manhã.
“Por isso, minhas rosas amigas, eu estou me despedindo de vocês. Eu vou nessa entrega e espero que vocês tenham tanta sorte quanto eu ao compartilhar da alegria que essa mãe vai viver quando nós lá chegarmos”. – disse a rosa mais velha.
As outras rosas celebraram a despedida e viram a floricultura ser fechada, pois o dia seguinte seria de movimento intenso. Durante a madrugada, sem entender direito o que estava acontecendo do lado de fora, muito barulho e sirenes pela rua tiravam o sossego de todas as flores da loja.
Às vezes, até como num filme, parecia que eram tiros disparados ali em frente ou nas proximidades. “Durmam todas, disse a rosa mais velha, deve ser a televisão do vizinho que está muito alta”. Pela manhã, o dono da loja abriu com o dia ainda clareando, pois contava com um grande movimento. Parecia tenso, o que não era normal.
Realmente, muitos filhos comprariam flores para suas mães. E aquelas já reservadas começariam a ser entregues. Em especial, o belo ramalhete para a mãe do policial foi um dos primeiros que o entregador levou. Mal sabia ele que o destino final seria outro, num ambiente muito diferente daquele de alegria que se imaginava.
O policial fora morto numa ação articulada por facção de bandidos, durante a noite. Ele e outros policiais foram assassinados sem dó nem piedade. Com isso, a maior cidade da América do Sul passou a vivenciar momentos de medo, com as pessoas se recolhendo cedo ou nem saindo de casa. Aquelas rosas foram depositadas pela mãe chorosa no enterro do querido filho.
O comércio, a indústria e os serviços foram todos atingidos, sem exceção. Na dignidade e na sua produção. A vida social ficou despedaçada, fragilizada. Em definitivo, a arena de negócios deixou de registrar apenas os sadios embates das empresas e passou a mostrar a nefasta influência dos ataques covardes de bandidos. E a quem se deve atribuir essa culpa? De quem cobrar soluções?
Numa perspectiva social, poderiamos fazer uma série de digressões diferentes, a depender das ideologias e interesses de cada analista. Mas, numa visão macro-econômica, ninguém duvida que chegamos a um ponto em que se pode usurpar famosa expressão de Rui Barbosa. Sua congênere contemporânea passa a ser: “Ou o Brasil acaba com as gangues e facções criminosas ou elas acabarão com o Brasil”.
Isso ficou piegas, inocente, infantil ou sonhador? Pode ser, mas é a dura realidade. Pois aí está o estratégico desafio aos marqueteiros a serviço de candidaturas políticas. Nós devemos acompanhar atentos como as palavras adequadas serão escolhidas para criar, na sociedade, a crença de que há um líder capaz de encontrar o caminho possível.
Cada um dos candidatos se dará a prerrogativa de ser o gerador da paz sociasl e da tranquilidade ao desenvolvimento do país. Mesmo que saiba não dizer a verdade, quem tiver a melhor competência verbal estará eleito, certamente!
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