Quitutes, mulheres e imortais!

Quando Jorge Amado foi encontrar-se com Deus, em 2001, amigos e admiradores prestaram homenagens de várias formas. Um conto que escrevemos, trazendo ao mesmo ambiente vários dos personagens que irão imortalizar o sempre amado Jorge, acabou ganhando destaque. Ele foi publicado na edição especial do Jornal de Letras e também tornou-se um dos selecionados para o livro "O Conto Brasileiro - Hoje", da RG Editores. Se você gostar e quiser uma cópia, faça a impressão livremente e o divulgue a outras pessoas.

Sábado de primavera, aquela dona de casa confere a hora num relógio preso à parede da cozinha. Passavam dez minutos das 9 horas da manhã. Flor, além de excelente cozinheira, chamava a atenção dos homens pelo rosto meigo e redondo, com belas covinhas, e um corpo muito bem servido de carnes. Começava a ficar aflita, pois duas amigas estavam atrasadas para tomarem café e comerem do bolo ainda quente para depois, as três juntas, irem à missa de trigésimo dia da morte de um amigo muito amado, chamado Jorge.

Toca a campainha e mal a porta é aberta, vai entrando a moleca da Gabriela. Também cozinheira de mão-cheia, ela reconheceu o cheiro gostoso de um quitute de fubá e correu para experimentar. Enquanto curtia aquele sabor tão familiar, Gabriela já foi se desculpando com a amiga:

- Flor, não briga comigo pelo atraso. Foi o ônibus que quebrou vindo de Ilhéus.
- Agora só falta a Tieta! - lembrou a anfitriã.
- Ah! eu estava esquecendo de contar. Ontem, ela telefonou pro bar e disse que não vem. Está com algum problema no Agreste. Aí você já sabe, prosa vai, prosa vem...
- Mas a idéia de mandar rezar essa missa foi dela!
- Vai entender! Tieta disse que precisa viajar amanhã para as bandas de São Paulo...Parece que tem que encontrar um industrial, eu sei lá!

Gabriela falava e comia do bolo, com os belos olhos brilhando de prazer. Flor acompanhava a amiga, servindo mais um café para as duas. Disse:

- Acho melhor a gente ir andando, prá não perder a hora. A missa foi marcada para as 11 horas. No caminho fiquei de encontrar Dorotéia e Marialva, que também fazem questão de homenagear nosso amigo.

Flor deixou um bilhete para o marido, que havia saído bem cedo para ir à farmácia. Ele prometeu encontrá-la na igreja, no final da missa e, certamente, Vadinho iria estar junto. As duas foram para a rua, encontraram as duas vizinha e passaram a formar um conjunto de belas e desejadas mulheres, cada uma ardente a seu jeito, mas todas com muitas histórias de prazer bem vividas.

Chegaram no Nosso Senhor do Bonfim, e se surpreenderam com a igreja superlotada. Afinal, o amigo era muito querido, não só pelos vizinhos de Rio Vermelho, mas pelos baianos e brasileiros de todos os cantos. Cumprimentaram alguns conhecidos na porta, como Pedro Arcanjo, Mirabeau, Guimarães, Wilson e, em especial, um simpático senhor sentado no chão. Flor havia sido apresentada a ele por Vadinho, tempos atrás, e ela nunca entendeu porque o Seu Joaquim Cunha largou o emprego e a família para vagabundear pelas ruas. Nem de onde saiu o seu apelido curioso.

- Esse é um homem querido por tudo que é gente da boemia! - apontou Flor para as amigas, com insuspeito ar de reverência. Afinal, Vadinho e Quincas bebericaram várias vezes pelos botequins da vida.
- Interessante, acabei de lembrar de Teresa Batista e da Rosa de Oxalá. - falou Dorotéia. Será que estão na missa?
- Deixa que eu vou procurar por elas! - exclamou Gabriela.

Naquele amontoado de pessoas, misturavam-se ricos e pobres, intelectuais famosos e anônimos, capoeiristas e quituteiras, políticos e artistas, enfim, gente de todos os tipos, crenças e origens. Amigos unidos num momento de energia, lembranças e tristeza. Saudade, sem qualquer pieguice, é o que poderia resumir o que se passava no coração e na mente dos presentes à missa de Jorge.

A cerimônia estava perto do momento da comunhão quando Gabriela voltou a ter com Flor, num lugar próximo ao altar. Elas se surpreenderam com a chegada esbaforida de Tieta. Com impecável roupa justa, de fundo branco e detalhes em azul, e muito bem produzida. A baiana em nada lembrava alguém que acabara de chegar do interior. Gabriela cochichou:

- Que foi? Você me disse que não poderia aparecer!
- Eu me virei como pude, deixei Leonora cuidando dos negócios, mas não iria faltar de jeito algum. Afinal, como vocês, também devo minha vida ao amigo que viemos homenagear.

A missa acabou, e a igreja foi ficando vazia. As pessoas saiam tristes e cabisbaixas, algumas com lágrimas nos olhos. Cada uma, a seu jeito, curtia a saudade aguda. As três amigas se despediram de Zélia, companheira de lutas do amigo Jorge, e aguardaram mais um pouco, de mãos dadas. Até que se levantaram e caminharam em direção à porta principal. Uma perguntava as angustiava: e agora, o que será do futuro?

- Será que nosso mundo vai mudar daqui prá frente? - perguntou Flor, acompanhada pelo olhar instigante de Gabriela.
- Não sei, realmente, não sei. Nosso amado criador se foi, os seus personagens se dispersaram e eu...não sei o que pensar!

De repente, percebem a presença de uma mulher diferente, desconhecida, ainda sentada num banco ao fundo da igreja. Também triste, mas equilibrada nas suas emoções. Ela levanta o rosto e olha fixamente para as três, que param e devolvem o olhar com expressões de incrível curiosidade.

Flor, Tieta e Gabriela ainda se questionavam sobre o futuro, sem o amado Jorge, e algo lhes dizia que teriam ali a resposta. Tieta, desinibida, perguntou à mulher:

- Você conhecia o Jorge?
- Pessoalmente não. Eu sou de outro lugar, de outra época, mas precisava ver vocês.
- Qual seu nome? - arriscou Gabriela.
- Capitu.
- E o que você quer nos dizer?
- Quero responder a dúvida de vocês!

As três amigas se entreolharam, duvidando do que ouviam. O mundo sem Jorge parecia assustador, iriam elas conseguir sobreviver? Foi quando Capitu lhes disse:

- Meu criador morreu há muito tempo. Mas permanece vivo para o mundo através das histórias que criou, das fantasias que eu e todos os personagens representamos. Quantos, até hoje, não se perguntam se eu traí ou não meu marido?
- E traiu? - perguntou Flor, não conseguindo conter a curiosidade.

Capitu sorriu e, fingindo não ter ouvido a pergunta, completou:

- Vocês terão, para sempre, a responsabilidade de manter vivo o amigo Jorge. As histórias irão alimentar as fantasias das pessoas, os personagens farão parte de mundos distintos. E Jorge não morrerá jamais. Vocês é que irão conseguir isso e, portanto, sigam seu destino como se nada tivesse acontecido.

Ao terminar a frase, Capitu cumprimentou Flor, Tieta e Gabriela com um maneio de cabeça. Virou-se e saiu, desaparecendo logo depois. As três sorriram, entenderam o recado, e se despediram também. Dali a pouco, Gabriela estaria no Bar Vesúvio, fazendo Nacib se deliciar com sua pele, gosto de cravo e cheiro de canela. Tieta apressou-se a viajar para retomar seus contatos, amores e segredos.

Dona Flor encontrou os seus dois queridos na porta da igreja, como tinha ficado combinado. Deu o braço direito a Teodoro Madureira, vestido com seu terno claro, gravata e chapéu. Vadinho, à esquerda, desfilava nu para os olhos únicos da mestiça cabo-verde, tímida e ousada. A caminho de casa, para um delicioso almoço de sábado, recomeçava ali um novo ciclo de vida para o trio.

E tal como Dona Flor e seus dois maridos, a partir de então, todos os personagens do amado Jorge estão totalmente comprometidos com a imortalidade. Deles todos, de cada um em particular e, mais importante, do amigo que se foi para contar suas histórias lá no Céu!

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