Um paraíso verde! ............................................................
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A TV Tupi nasceu em 1950, no Sumaré, e eu em 1951. Como ocorreu com Mario de Andrade, destaque na cultura brasileira, o destino também me levou para viver na Barra Funda. Nesse bairro, o poeta morou vários anos num sobrado da Rua Lopes Chaves, onde faleceu em 1945. Hoje, ali há uma casa de cultura que leva seu nome.

Chegou 1958, consagrando o Brasil como campeão mundial de futebol. O mundo mágico era ir ao Circo Piolin ou acompanhar meu pai no futebol da várzea do Rio Tietê, aos domingos pela manhã. Eu ia vestido tal e qual um jogador, carregando com orgulho a bola de futebol.

O Parque da Água Branca era aonde íamos após o almoço. Eu não fazia idéia da importância daquela imensidão verde. Queria era correr, brincar, esconder-me entre as árvores, ver os animais em exposição e tomar sorvete. Alegria é a palavra que melhor define essas emoções.

Em meados dos anos 60, ainda se vivia uma São Paulo sem congestionamentos. O Brasil era bicampeão mundial, Jânio renunciara e os militares assumiram o comando do país, instalando-se em Brasília. Eu, aluno do Colégio de Aplicação da USP, continuava mantendo o paraíso verde na minha vida.

No Parque da Água Branca nós tínhamos aulas práticas de Ciências e Educação Física. Ele e eu éramos inseparáveis, tantas foram as vezes em que lá eu ia a lazer ou estudo. A essa altura, não existia mais o Circo Piolin!

Num dia de 1966, aquela natureza inspiradora deu a coragem para eu me declarar a uma colega. Ela se assustou ao ouvir "quero namorar você", quando estávamos no lago coletando girinos para as aulas de laboratório. Por certo, muitos outros romances nasceram em meio às flores, plantas e pássaros do lugar.

Final dos anos 60 e início dos 70, eis um momento difícil na vida nacional. Já na universidade, aumentava a leitura de textos e a elaboração de teses acadêmicas. Regularmente, eu ia ao Parque da Água Branca estudar, aproveitando o serviço ali disponível e de onde nasceu muita contribuição à agroindústria nacional. A primeira versão da Casa Mario de Andrade era um outro local para pesquisas.

Findavam os anos 70, o Brasil já era tricampeão mundial, os programas da TV Record ainda lotavam teatros e o Lula ganhava destaque na política. Novos viadutos e o Minhocão contribuíam com as condições do tráfego da cidade. O acesso ao Parque da Água Branca melhorou e ele ficou uma charmosa ilha de lazer para adultos e crianças. Então, meu filho me mobilizava para levá-lo passear, escolhendo espaços e caminhos para pedalar sua bicicleta.

Em meados dos anos 80, o Brasil vivia os efeitos do "Milagre Econômico" e os militares não estavam mais no poder. O Pelé havia pendurado as chuteiras e o Corinthians tinha quebrado o jejum de campeonatos. O meu filho já crescido acompanhava-me para levarmos a irmã menor ao parque.

Foi lá que ela aprendeu a andar de bicicleta, corria pelos quatro cantos e não deixava de rir dos macaquinhos. E brincava com os sons dos bichos, treinando sua imitação preferida, com a voz infantil falando "arara..arara..". Alegria, como sempre!

Os anos 90 chegaram, veio e saiu o Collor. O Brasil já é tetracampeão e o Lula ia tentar a Presidência de novo. Continuei a ir com os filhos passar momentos agradáveis naquele espaço de lazer, ele que é o precursor de parques temáticos no Brasil. Inaugurado em 1929 e tombado em 1996, tem nascentes de água, prédios em estilo normando com vitrais Art-Déco, localização e paisagem privilegiadas.

Eu me preparava para ser avô e não deixava de ir ao parque. Pode ser coisa da idade, mas parece que as plantas, os pássaros e eu conversamos em um idioma peculiar. Com os filhos crescidos, nós três adorávamos andar no trenzinho Maria Fumaça, convivendo com nossas lembranças e feitos nas ruelas e áreas verdes.

Ano de 2003. Não existe mais a TV Tupi, o Brasil é pentacampeão, o Lula é o novo Presidente tendo por lema "a esperança venceu o medo", projetando futuro melhor para os brasileiros. Nos últimos 450 anos, o Brasil e São Paulo mudaram bastante e, por seu lado, o Parque da Água Branca foi se renovando e sendo uma referência de cultura e lazer da cidade, recebendo quinze mil pessoas em finais de semana.

Ano de 2003. Lá fui eu apresentar o parque amigo às duas netas, para mostrar onde o pai delas corria, onde a tia brincava com a arara, onde o avô estudava. Pude ver que o local ainda motiva declarações arrebatadoras de pessoas enamoradas. Muitos são os que têm, pelo parque, o mesmo encanto que eu. De mãos dadas com as meninas, pude lembrar quando meus pais me amparavam para eu não cair!

Em 2004, são 450 anos de uma rica história de cultura e costumes, que o tempo não apagará. A vida corre célere e as gerações paulistanas se renovam. Mas para cada pessoa, em particular, haverá um paraíso verde ou outro local especial, com novas e singulares maneiras de bem querer São Paulo.

Demonstrações carregadas de amor intenso, honesto e puro, como Mario de Andrade resumiu ao escrever "Quando eu morrer quero ficar, não contem aos meus inimigos, sepultado em minha cidade".


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