| Vênus, Cupido e a paixão |
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Os leitores do Jornal de Letras já se acostumaram a encontrar, em meus textos, variações e comentários em torno do amor e da paixão na vida do ser humano. Aliás, essa questão permeia nosso cotidiano desde as mais antigas eras, havendo muitos casos contados e recontados, derivados da mitologia ou desde que Abrahão se casou com Sara.
Um dos mais antigos livros de sabedoria de que se tem notícia, o Bhagavad-Gita, dá a sua definição para a paixão em seu capítulo 14 (verso 8): "O modo da paixão caracteriza-se pela atração entre duas pessoas... Quanto maior o modo da paixão, maior será o anseio pelo prazer material, o que se reflete na busca do gozo dos sentidos..."
Só por aí já se identifica que o estímulo sexual é indissociável em relação à paixão. Doce ilusão é querer resistir aos impulsos dos sentidos quando a pessoa se apaixona, pois seu metabolismo assumirá uma liderança incontrolável sobre todos os pensamentos e movimentos. Literalmente, o texto sagrado diz que "um rapaz se encontra com uma moça, e os seus sentidos impelem-no a vê-la, a tocá-la e a ter relação sexual com ela. No começo isso pode ser muito agradável para os sentidos mas, no final e passado algum tempo, isso se torna exatamente como veneno."
Ora, de que veneno será que o livro está falando? Afinal, quem não gosta de se sentir envolvido numa relação forte, dominadora, que nos faz viajar pelo espaço a cada encontro? Será que o veneno é a poção mágica das histórias de fadas e bruxas, algo que inebria a pessoa e a deixa seduzida, como um zumbi? Ou será que o veneno é o mal que a paixão faz quando acaba, deixando em seu lugar vários dos piores sentimentos humanos, tais como raiva, ciúme, angústia, inveja ou ódio?
Mas o Bhagavad-Gita vai além, em seu capítulo 18 (verso 38), para explicar a preocupação que se deve ter para evitar o veneno da dor advinda do final de uma paixão. Diz que "as pessoas se separam e surgem a lamentação e a dor. A felicidade derivada duma combinação dos sentidos do prazer deve sempre ser evitada". Ou seja, toda a relação que começa pela paixão ou, em outras palavras, pela busca da satisfação através do sexo, tende a deixar dor e sofrimento no final.
E é interessante como os artistas conseguiram, ao longo dos séculos, traduzir esse louco sentimento em várias demonstrações, explorando-o maravilhosamente pela pintura, escultura, literatura, fotografia, cinema e música. Se formos à extensão, podemos até incluir a gastronomia como forma artística de invocar sentimentos extremados.
Afinal, um estado complexo como o da paixão, físico e emocionalmente, que cerca qualquer vítima como num transe do qual não se tem saída, sempre possuiu as mesmas características típicas, reais e profundas, modificadas na forma de sua expressão apenas pelos usos e costumes, bem como pelo linguajar de cada época.
Muitos confundem amor e paixão, dando-lhes entendimento equivalente. Afinal, o apaixonado sempre acredita que o outro é a personificação do Amor maior, sua alma-gêmea. Para um artista, é inspirador buscar na mitologia a formação de arquétipos para suas obras. A divindade mais celebrada no amor, junto com Eros, talvez seja Vênus (ou Afrodite). Os estudiosos apresentam diferentes origens a Vênus (na própria associação dessa figura mitológica com a questão da paixão têm-se várias explicações divergentes), mas em qualquer uma, ela é reconhecida como a Mãe do Amor, Deusa dos Prazeres.
Consta da Mitologia Moderna que Cupido é filho de Marte e Vênus, que tiveram que se desfazer dele pois Júpiter antecipava as perturbações que o menino causaria. Vênus escondeu-o no bosque e Cupido foi alimentado pelos animais selvagens. Quando cresceu fez do arco e das flechas ardentes a sua forma de defesa.
Cupido apaixonou-se perdidamente por uma mortal, de rara beleza, chamada Psiquê (em grego, alma), com quem quis se casar. Vênus, mesmo sendo uma deusa dos sentidos, parece que não aceitava bem a aventura alheia. Por não concordar com o casamento do filho submeteu Psiquê a duras provas. Cupido se queixou a Júpiter, que a essa altura já o aceitara e concordava com a união. A noiva mortal foi levada ao encontro dos Deuses, tornando-se uma deles. Volúpia é a filha de Cupido e Psiquê.
Portanto, leitor ou leitora, se um dia você conhecer alguém numa situação inesperada, sentir um calafrio na espinha, não conseguir deixar de pensar nessa pessoa e passar por variações de comportamento a cada instante que se lembrar de um contato mais íntimo, é bem possível que a paixão esteja se instalando (ou já instalada). O seu consolo para isso é saber que há milhões de pessoas passando pela mesma situação.
O lado negativo é que você não está no Olimpo e nem tem chance de virar um Deus. Dependendo de sua situação conjugal, a alternativa que sobra é fugir e esconder-se na floresta, pedindo apoio aos amigos de Cupido como uma maneira de deixar as emoções abrandarem, fuga essa recomendada por Santo Agostinho como o único "santo" remédio contra a paixão. E então, tentar voltar com a força de um Odisseu, o único que não sucumbiu aos encantos e à sedução irresistível de Circe...
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