Conjuntura
Econômica
- Março de 2003
1.
Opinião
O Governo Lula está chegando aos seus três primeiros
meses e, certamente, ainda é cedo para se fazer uma
avaliação categórica. Seria uma impropriedade
atribuir-se ótimo, bom, regular ou ruim, quando agora
é que as peças desse complicado tabuleiro começam
a ser mexidas com mais desenvoltura. Mas, certamente, valem
alguns alertas, pois o equilíbrio das realizações
dependerá, sempre, do humor da sociedade.
Politicamente, algumas brigas foram compradas, dentro e fora
do partido governista. Algumas das articulações
em nada lembram as posturas históricas do PT mas, por
outro lado, no poder o compromisso e a esfera de pressões
são diferentes. Até podemos fazer a analogia
de que "treino é treino, jogo é jogo".
O fundamental é que as decisões que envolvem
ética e honestidade nunca sejam negociadas em troca
de interesses de curto prazo. Presidente, cuidado ao transigir
politicamente!
Em relação à sociedade mais carente,
ficará muito complicado entender a não consumação
de promessas básicas de campanha. Como um partido,
liderado pelo atual Presidente, tanto defendeu as mais legítimas
questões populares e deixa os remédios subirem
tanto? Como podem os preços regulados terem altas expressivas
como neste início de ano? Como pode haver tanta discussão
em torno do futuro da Previdência, sem atender as promessas
a quem já se aposentou e ganha um salário mínimo?
Presidente, atenção ao equilíbrio!
E por falar-se em prioridades, o Governo tem apostado nas
reformas da Previdência e na Tributária. No meio
do caminho, a área econômica suspendeu a tramitação
de projetos em andamento e que poderiam, caso aprovados, modificar
alíquotas do Imposto de Renda ou o valor teto das aposentadorias,
entre outros. Fica evidente que o foco está no aumento
da arrecadação e no superávit das contas
públicas. E reforma do Judiciário, como é
que fica?
Afinal, de que adianta haver um sistema arrecadador convivendo
com falhas na aplicação das leis, viabilizando
os desvios, roubos, falcatruas, impunidade e até envolvimento
direto em máfias que garantem liberdade plena às
lideranças da criminalidade. Será que os exemplos
mais recentes, tanto regionais como nacionais, de nada valeram?
Como uma família de cupins, a escória estará
minando qualquer nova frente de arrecadação.
Portanto, Presidente, tenha atenção com o que
se passa escondido por debaixo da mesa!
Finalizando, no ano que vem teremos eleições
para as administrações municipais. São
os prefeitos e vereadores que convivem, de perto, com a população.
Em algumas cidades, como em São Paulo, as pesquisas
mostram uma significativa rejeição popular aos
atuais mandatários. O PT já perdeu estados importantes,
no último pleito, e se vier a perder cidades grandes
e tradicionais, isso pode abalar os alicerces do Executivo
Federal. Então, Presidente, além da sua própria,
atenção à imagem de seus representantes.
O Presidente nem precisaria dos nossos alertas, tantos são
os conselheiros que o cercam. Ou, talvez, por isso mesmo valha
a pena ele bem ouvir os de fora, rompendo alguns muros que
o poder sempre estabelece em torno do líder, que passa
a não ver, ouvir, saber...
2.
Despedidas
Após cerca de dois anos e meio, em que o articulista
e os leitores puderam conviver através das opiniões
lançadas neste espaço, a vida apresentou mudanças
de rumo e nos levou a atender outros caminhos profissionais.
Infelizmente, tornou-se inviável compatibilizar a produção
de Mercados e Negócios com os novos desafios que estarão
à nossa frente. Assim, queremos aproveitar para agradecer
a paciência, compreensão, carinho e atenção
com que os leitores sempre acolheram os comentários
aqui apresentados. Então, como se diz na gíria,
"até um dia, até talvez, até...quem
sabe?".
3.
Não deixe de visitar
Em meio a tantos casos de corrupção e má
gestão das coisas públicas e privadas, é
triste que grande parcela da raça humana ainda mede
seu sucesso pelo saldo da conta bancária, esquecendo
o quanto todos nós somos uma pequena partícula
num universo de regras próprias. O pior é que
até guerras são articuladas em busca de melhor
qualidade de vida de poucos, em detrimento das condições
de muitos. Para quem quiser refletir sobre essas palavras,
com base em imagens e dados científicos, fica a sugestão
de acessar o site http://micro.magnet.fsu.edu/primer/java/scienceopticsu/powersof10/index.html.
4.
A frase do mês
"Identificar e medir emoções do público-alvo
é, talvez, o maior dos desafios atuais do Marketing",
conceito aqui lembrado pelo consultor que responde pela coluna.
5.
Dois em um
Numa edição de despedidas, o articulista quer
deixar dois lembretes em um só espaço:
"No médio prazo, só conseguirão
sobreviver as marcas que agregarem, aos seus produtos e serviços,
claros atributos de qualidade, relevância, diferenciação
e relações humanizadas";
"As empresas devem se preparar para um jogo de profissionais,
sendo vencedora a que melhor compatibilizar os processos de
marketing com o planejamento estratégico, tendo atenção
à criação de uma cultura orientada ao
mercado".
6.
No mundo da publicidade
A Bates Brasil lançou um anúncio à procura
de um profissional para a função de Atendimídia.
Com isso, não só está oficializando um
perfil profissional na propaganda, juntando atribuições
de duas áreas de notória especialidade, como
comprou uma bela briga com as associações e
grupos do setor. Estes não aceitam a existência
de um profissional que possa servir para atendimento e mídia,
de maneira concomitante. Mas, pela enorme resposta que a agência
teve de interessados, o mercado deve pensar diferentemente,
até porque em milhares de pequenas agências o
Atendimídia já é pra lá
de comum...
7.
Pílulas
Antes de culpar...
Não pegou bem o presidente Lula da Silva criticar as
agências reguladoras de serviços de infraestrutura,
atribuindo a elas a culpa pelo descontrole de preços
e a terceirização do poder político.
Em primeiro lugar, o papel de cada uma das agências
foi definido por uma legislação que deve ser
respeitada. Se existem desvios de funcionamento ou erros de
concepção, o Executivo Federal deve seguir a
cartilha da democracia e propor ao Congresso as alterações
que julgar necessárias.
... é melhor refletir bem!
Mas para confirmar que o Governo precisa pensar melhor antes
de sair criticando, vale lembrar que as agências ligadas
à área de energia são subordinadas ao
Conselho Nacional de Política Energética, presidido
pela Ministra Dilma Rousseff. O que a ANEEL e ANP fazem é
fiscalizar contratos e cumprir políticas, não
definindo preços ou tarifas. Logo, nossa sugestão
é o Governo organizar suas equipes, discutir os caminhos
que melhor podem atender os interesses nacionais, e implementar
ações. Através das agências reguladoras.
Clima
de Guerra I
Para muitos, infelizmente, parece que a ameaça de guerra
EUA-Iraque passa longe e nem interessa discutir. Muitos executivos
de empresas com elos multinacionais fingem-se de desentendidos,
no maior clima low-profile, só tratando do assunto
a portas fechadas. Afinal, alguém vai se manifestar
podendo criar problemas de relacionamento com outros interesses
internacionais? Mas, cada vez, fica mais claro que a onda
avassaladora com que se busca crescer o clima de guerra está
ligada ao extremamente crítico momento econômico
americano.
Clima de Guerra II
Esta coluna foi uma das primeiras a comentar a crise moral
e ética de grandes empresas americanas, que acabou
gerando concordatas e falências, e mostrando a fragilidade
do sistema de controle contábil dos Estados Unidos.
Será que o clima de guerra não nasce do fato
de os americanos se defrontarem com a maior inflação
da última década, com aumentos muito acima das
expectativas em energia e produtos básicos? Será
que um crescimento de 10% no déficit da balança
comercial e os números preocupantes no mercado de trabalho
não buscam na guerra uma alternativa? Será que
os americanos e ingleses ainda estão achando que o
mundo todo será iludido com um discurso antiterrorista?
Nosso padrão de justiça!
Reforçando a tese de que uma reforma no Poder Judiciário
é tão importante quanto as outras já
badaladas da Previdência e a Tributária, pode-se
usar o Rio de Janeiro como exemplo. Dos principais líderes
do tráfico que foram presos em 2002, apenas 30% continuam
detidos. Os demais, por obra e graças da indústria
de hábeas-corpus e o beneplácito da "justiça",
estão novamente pelas ruas. Vale lembrar que os parentes
e amigos daqueles que favorecem a criminalidade, sob qualquer
forma, não utilizam crachá de imunidade ou identificação
para se defenderem dos criminosos.
Marqueteiro ou ...
Nosso amigo e leitor Francisco Távora, profissional
de Marketing dos mais qualificados, levanta uma tese que tem
muita lógica. A terminação "eiro"
é aplicada a quem exerce atividade fundamentada na
prática, no fazer, executar, realizar. E exemplifica
com pedreiro, carpinteiro, engenheiro. Quando o profissional
se envolve em campos explicitamente voltados ao pensar humano,
a terminação "ólogo" é
que cabe, tal qual psicólogo ou sociólogo. Por
essa razão, questiona haver um erro de simplificação
na denominação "marqueteiro" ou "marquetólogo".
Marquetista?
A tese que o Távora apresenta, aprovada por professores
de lingüística que ele consultou, abre uma nova
denominação ao profissional de marketing. A
busca é a de uma titulação que consolide
tanto uma quanto outra realidades, ficando bem associada àquele
que pesquisa, cria, produz, gere, divulga, investiga e controla
todo o processo mercadológico desde a sua origem até
a conclusão. Esse trabalho é, portanto, uma
associação da teoria com a prática. A
proposição é "marquetista",
tal qual o artista que cria e concretiza, ou o estadista que
planeja e implementa suas propostas. E o leitor, o que acha
disso?
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