Engana que eu gosto!

Vejam só como a Drogaria Raia, de São Paulo, faz o consumidor de idiota...

Notem que a frase acima é assertiva, pois não se trata de a rede de drogarias "tentar" fazer o consumidor de idiota. Ela literalmente faz, e eu sou mais um a ser incluído na, talvez, já extensa lista. Apesar de este episódio ter acontecido na filial da Avenida Braz Leme, é certo que a prática que vou descrever é corriqueira e orientada pela gerência em toda a rede.

Em tempos de defesa da ética e da cidadania, cada vez mais imaginamos como verdadeiro o discurso politicamente correto das grandes empresas e redes de varejo quanto ao seu engajamento em defesa do consumidor. Isso no que diz respeito ao atendimento dado pelos funcionários bem como pelas próprias práticas comerciais. Mas, infelizmente, algumas adotam um modelo de Marketing que não aparece nos livros, o da "enganação"!

"Engana que eu gosto" é uma expressão que se aplicaria bem a este caso, tamanha a desfaçatez com que a gerente se posicionou no ato da minha reclamação. E para o leitor fica o aviso de que o mesmo fato ocorrido, que inusitadamente me tirou do sério, dá-se também na grande maioria de drogarias do país, como fui informado posteriormente.

Várias drogarias de São Paulo estão expondo enormes faixas anunciando descontos de 30% a 50% nos preços dos remédios. Particularmente, a Rede Raia tem seu cartão de fidelidade específico, o qual dá direito ao usuário a participar de promoções (por exemplo, no momento pode-se ganhar CD de pagode após conquistar determinada quantidade de pontos). Além disso, para alguns casos, haverá um desconto adicional nos preços.

No último final de semana, eu estava na capital paulista e, para atender a solicitação de familiares, prontifiquei-me a fazer a compra de vários remédios. Por obra do acaso, entre outras possibilidades, parei na Raia. Pedi e recebi os remédios, dirigi-me ao caixa e, então, foi-me feita a pergunta: O senhor tem cartão Raia? À resposta negativa, foi realizada a operação de cobrança e fui-me embora.

Quando entreguei os remédios a quem de direito, ficou constatado que o preço cobrado era o de tabela, nenhum desconto havia sido praticado. Claro que o usuário do medicamento identifica isso de imediato, tamanho o impacto que o custo dos remédios gera na vida de quem deles depende para manter a saúde. No dia seguinte, voltei à farmácia, munido dos remédios e da nota fiscal, e procurei a gerente de plantão para corrigir o erro.

Pois bem, ela disse que só os portadores do cartão Raia é que têm o desconto automático. Levei-a para a rua e mostrei a faixa, que não tinha qualquer indicação nesse sentido. Apenas estampava a imagem do cartão Raia, como assinatura publicitária. É certo que não me atrevi a negociar por esse lado, mas caímos numa lógica que mais parecia conversa de doido:

- Mas a caixa não perguntou sobre o cartão Raia? - disse-me a gerente.

- Perguntou, e eu disse que não tinha.

- E porque o senhor não pediu o desconto?

- Mas, espera aí! Pelo que você diz, o anúncio divulga que vocês dão o desconto, mas só vale se o cliente pedir? Vocês imaginam que algum cliente vai preferir pagar sem desconto?

- Só com o cartão Raia é que o desconto é automático. Para darmos o desconto anunciado o cliente sempre tem que pedir. Aqui é assim, se pedir o desconto nós daremos ou, do contrário, cobramos o preço normal.

A partir daí, ela se transformou em uma vitrola quebrada que fazia repetir a mesma frase: "Só com o cartão Raia". E eu saí do local imaginando quantas pessoas não são ludibriadas pela publicidade enganosa de um estabelecimento comercial, anúncios como o dessa e de outras casas que praticam política comercial similar. Quantos não compram o produto imaginando que estão recebendo um belo desconto e, na boca do caixa, o preço praticado é o real?

Conversando com outras pessoas eu vim saber que é normal, em drogarias paulistas, a prática de descontos num patamar mínimo de 5% a 10%, dependendo do produto. Mas nenhum atendente avisa, pois o cliente é que deve se manifestar interessado pelo desconto. E quando de promoções, há outros casos como o da Raia, que atrai o comprador com vantagens aplicadas "se o cliente manifestar a vontade de ter o desconto", como a gerente me falou. A bem da verdade, também há as redes que informam o preço de tabela e o com desconto na embalagem de todos os produtos (o que, evidentemente, é o mais correto).

Num mundo tão complicado e conflitante, infelizmente ainda existem os que se lançam a essas práticas indevidas para auferirem lucros crescentes. E seguem mantendo uma relação de hipocrisia e arrogância com o cliente. O consolo é que, aos envolvidos em alguma situação como essa, resta lançar mão de outras armas como a denúncia, fazendo valer o direito do consumidor. Sempre com a esperança de contribuir para o saneamento do mercado ou, no mínimo, para a derrocada dos que lideram políticas comerciais enganosas.

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