Duas mulheres num domingo carioca
Esta
é uma rápida história de duas mulheres
cariocas, num domingo de 2004.
Regina e Sonia fazem parte do universo de quase dois terços
das mulheres cariocas que estão trabalhando atualmente
e, por sorte, estão no grupo minoritário que
tem carteira profissional assinada. Na praia, pela manhã,
para onde vão metade das mulheres que tiraram férias
mas não viajaram, elas conversam sobre seus empregos.
Regina faz várias críticas ao comportamento
de um rapaz que trabalha com ela, pois ele parece não
admitir ser chefiado por uma mulher. Sonia então se
lembra que mais da metade dos homens se sentem bem incomodados
com essa situação.
- Êta machismo bravo! - falou Regina.
- Sorte que eu nunca me senti discriminada no meu trabalho,
apenas por ser mulher, o que ocorre com quase 80% das mulheres.
Mas fico muito chateada com essa realidade.
Dessa forma, Sonia procurava deixar Regina mais tranqüila
pois, segundo havia lido numa revista de recursos humanos,
85% dos homens dizem não se incomodar por serem chefiados
por uma mulher. Pelo menos, dizem!
Nesse momento, na avenida próxima passa um carro cheio
de rapazes, gritando o nome do time pelo qual Regina é
torcedora. Isso fez com que ela se lembrasse que, logo mais,
haveria futebol no velho Maracanã. Mesmo sendo parte
dos 40% que só acompanham eventualmente o time do coração,
ela sabia que aquele era um jogo importante. Pensou convidar
Sonia para irem juntas ao estádio, mas a amiga é
uma entre os 70% de torcedores que preferem acompanhar seu
clube pela televisão.
Além disso, Regina havia comprado um carro O km recentemente,
e não iria arriscar ter que voltar a pé para
casa. Como uma das pessoas do grupo de 40% que dão
prioridade extrema às condições de pagamento
do automóvel, na hora da compra, certamente sabia o
quanto esse conforto iria lhe exigir economizar nos próximos
meses.
Sonia tinha um carro usado, e sua dificuldade com as condições
de pagamento não tinha sido tão grande. Afinal,
seu caso se compara ao de 45% dos compradores em que a maior
preocupação acaba sendo com o estado do motor.
Aliás, coincidentemente, esse mesmo índice mostra
o percentual de compradores que fazem, como primeira opção,
a escolha de um modelo popular.
Inclusive, isso acontece porque apenas 20% do público-alvo
das montadoras se interessam, com prioridade, por ter um carro
com a direção hidráulica. E menos de
5% pensam, como o item mais importante, na potência
de motor.
No bate-papo, as duas também comentaram de seu medo
da violência nos estádios, que hoje afasta muito
o público dos gramados, na opinião de 90% dos
cariocas. E afinal, as duas também admitiram, como
15% dos torcedores, que hoje o futebol é de má
qualidade.
Enfim, resolveram encerrar o dia com um programa cultural.
Para quem vai ao cinema de duas a três vezes por mês,
como menos de 10% dos cariocas, esse domingo parecia perfeito.
Mas Sonia lembrou que fazia tempo que não ia ao teatro.
Ela é como Regina, que vai, no máximo, 4 vezes
ao ano, o que a coloca num grupo de 5% da sociedade. O incrível,
segundo as duas sabiam, é que quase três quartos
dos cariocas não vão ao teatro.
O curioso é que, quando chegarem ao Shopping Center,
a fila era enorme.
- Será erro de estatística? - perguntou Sonia,
com um sorriso matreiro.
- Bem, ao invés de assistirmos um filme romântico,
que tal sentarmos num barzinho, como fazem 20% dos cariocas,
uma a duas vezes por semana! - sugeriu Regina.
No barzinho, tendo tomado dois (só isso?) chopes, e
num clima já propenso a uma boa paquera, Sonia riu
e disse que essa freqüência é a mesma que
20% dos cariocas costumam ter de relações sexuais
por semana.
Revolveram sair cedo do local, pois no dia seguinte Regina
iria buscar seus pais no aeroporto, logo pela manhã.
Eles estavam para chegar dos Estados Unidos, para onde vão
mais da metade dos cariocas que tiram férias no verão
e viajam para o exterior. Claro, lá tem de Nova York
a Disneyworld, mas o importante é que todos voltem
contentes, e fiquem felizes para sempre... .
Após um breve período ausente, aqui estamos
também de volta e felizes, brincando com palavras e
números. Esse texto acima, prolixo e "chato",
serve para mostrar como deveria funcionar a cabeça
de um profissional de marketing e comunicação,
ao desenvolver um projeto, estudo ou campanha. Afinal, qualquer
ação depende de uma avaliação
de cenários, tendências e expectativas objetivas
e subjetivas quanto ao público-alvo.
Logo, para melhor trabalhar o briefing de um cliente,
é fundamental para qualquer profissional ir decodificando
as palavras que está ouvindo, passando a buscar indicadores
que lhe permitam trabalhar e avaliar adequadamente os investimentos
que serão realizados. Apenas o aspecto criativo de
uma peça publicitária bem produzida nunca vai
resolver o problema do cliente, se não existir associada
uma relação bem desenvolvida de causa e efeito
na comunicação!
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