A
arte de iludir
As
novelas da TV colocam, lado a lado, ícones da dramaturgia
com gente nova, às vezes até talentosa. Mas
alguns artistas são meros rostinhos bonitos e corpos
maravilhosos. Lembro do caso de um amigo meu e de sua linda
namorada, que sonhava em fazer uma estrondosa carreira artística.
O Gilson conheceu a Graziela numa recepção.
Na primeira troca de olhar, faíscas de tesão
atravessaram o salão. Passaram do jogo de sedução
à linguagem corporal. O perfume de um corpo divinamente
esculpido e a magia da voz deixaram tonto o nosso herói.
E então, a química da pele fez o seu papel e
aliciou os dois para um enlace que prometia paixão
sem fim.
Passaram a fazer viagens furtivas do apartamento de um ao
do outro, em plena madrugada carioca, curtindo muito as fantasias
dos encontros. E as promessas do prazer pleno eram cumpridas,
entre carícias, gritos e sexo.
Fico a imaginar o Gilson alisando aquelas coxas gostosas e
bem torneadas, tendo uma visão espetacular daquela
mulher. E no calor da transa, percorrendo um caminho de beijos
sem começo ou fim, sentindo a delicadeza da pele e
os arfar dos seios. Ao final, a explosão de um calor
que só amantes sabem trocar, como complemento aos orgasmos
vividos a dois!
Mesmo quando a musa ficava aborrecida e lágrimas de
dengo molhavam seu rostinho, a forma como ela olhava para
o Gilson e dizia "eu te amo" mudava o rumo das discussões.
Ele era o mais feliz dos machos, dono de uma fêmea que
a tudo consentia. Ela era a melhor e única até
que...
Meu amigo assistiu a uma cena de novela com a participação
da bela modelo-atriz contracenando com um ator que, só
de "beijos técnicos", tinha quilometragem
a perder de vista. Gilson cá e ela lá, vibrando
nos braços de outro homem, num estado de entrega e
sedução total.
Gilson não chegou a se incomodar quando uma expressão
de choro de Graziela ficou parecida com o dengo que ele conhecia.
Até conseguiu agüentar quando o olhar dela lhe
pareceu íntimo e sofreu um pouco mais quando o "eu
te amo" da cena foi dito daquele jeito especial...
Mas a cara de mulher safadinha, mordendo os lábios
do ator e dizendo que com ele tudo valeria a pena, deixou
o Gilson angustiado. Por fim, ele não conseguiu tolerar
as palavras e os gemidos do casal que simulavam uma bela transa
na cama, com roupa de cetim. E como ela gostava de gozar com
roupa de cetim na cama...
Ela repetir o mesmo gemido não era possível
suportar! Afinal, será que a Graziela estava vivendo
na novela uma realidade nova e quente, tão gostosa
como a que tinha com ele? Ou a mesma arte de interpretar na
TV era o que ela trazia para a cama doméstica?
Fingir o amar não é nenhuma novidade e, na vida,
há homens e mulheres que se especializam nisso. Num
mundo com milhares de discípulos de Dom Juan, sejam
homens ou mulheres, eu sou do time para quem a expressão
do desejo exige a entrega do corpo e do espírito, como
a descobrir o sentido do prazer mútuo.
O
drama é quando alguém passa meses vivendo a
paixão arrebatadora, como as que se acompanha nas telenovelas,
e depois descobre que foi um mero coadjuvante nos ensaios
domésticos de sua ardente amada...
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