A ilusão do dourado

"Mas mãe, se todo domingo de manhã eu vou com o pai no futebol, porque hoje eu não posso ir?", perguntou Mario, na inquietação de seus 11 anos de idade.

Enquanto cuidava da filha menor, Yolanda, outra vez, teve que explicar para o filho as suas razões. Os tempos eram complicados, aqueles de final do ano de 1962. E em Dezembro, haveria uma prova de seleção para os candidatos ao ciclo ginasial do Colégio de Aplicação, a mais renomada escola estadual de São Paulo. A família não teria como pagar um estudo particular e essa seria, sem dúvida, a chance de Mario dar rumo à vida futura com um ensino de primeiro nível.

"A Dª Djanira, mãe do seu amigo Edson, vai dar aulas particulares de Português e Matemática para ele. E concordou em ter você nas aulas, sem eu precisar pagar nada. Eu fiquei de ir lá agora cedo, para acertarmos os dias, horário e o material necessário".

Dali a pouco, Yolanda e Mario foram ter com a vizinha professora. E no trajeto, a preocupada mãe dividia os pensamentos entre a expectativa de ver Mario entrar na escola, as dúvidas de como seria caso isso não acontecesse e, ainda mais, como compatilizar os preparativos para o parto de seu terceiro filho, previsto para Janeiro de 1963.

Cinco semanas se passaram. No dia da prova, sentada à frente de Mario, estava uma linda menina de pele clara e com longos cabelos loiros. A atenção do garoto dividia-se entre as cem questões a responder e um bater esquisito de coração, algo anormal que nunca havia ocorrido com ele. E mesmo tendo terminado bem antes dela, só entregou a prova quando a garota se levantou para sair.

"Será que o sorriso é para mim?", pensou Mario, mais do que agitado em uma doce fantasia.

Dias depois, a lista com os nomes dos candidatos, suas notas e a indicação de aprovados foi afixada num muro externo da escola. Logo cedo, Yolanda lá estava para conferir e, coincidentemente, quando ela chegou com o filho, também a fada loira e sua mãe buscavam o resultado. Mario e Ursula desgarraram-se e foram a um canto para conversar.

Ele estranhou quando, de longe, notou a mãe chorando, consolada por outras mulheres. Aproximou-se e ouviu comentários que associavam o mal-estar à gravidez avançada e ao calor, mas de fato a tristeza era fruto da decepção de não ver o filho aprovado. A mãe de Ursula, também desapontada com a filha, consolava Yolanda, sugerindo outras escolas onde as duas crianças poderiam estudar.

Mario e Ursula, sem entender direito os compromissos, expectativas e dificuldades associados à questão, começaram a fazer planos para a nova escola. Iriam continuar aquela recente aproximação, sem dúvida, no ano seguinte. Os lampejos de um amor puro descortinavam sonhos.

Minutos depois, chega-se ao grupo a Dª Djanira, alegremente cumprimentando Yolanda. Tanto Edson, como Mario, ambos haviam passado com excelentes notas. E, o que se mostrava curioso, é que a professora imaginou estar vendo a amiga chorando de emoção!

Esclarecido o mal-entendido, fruto da ansiedade da mãe grávida ao olhar a lista, para ela tudo virou festa. Viver a perspectiva de o filho Mario cursar o Colégio de Aplicação da USP tornou-se um grande prêmio dos Céus.

Num canto, perto do muro, duas crianças trocavam confidências, tristes com aquela notícia. "Você promete que não vai me esquecer?". O "sim" como a resposta de ambos, não passou de mais uma promessa de adolescentes enamorados.

Mario e Ursula nunca mais se viram, mostrando que o jogo do viver e sonhar tem várias facetas. Yolanda e toda a família puderam comemorar uma tão esperada realidade, alegre e construtiva, no mesmo momento em que o pequeno herói, Mario, vivia a frustrante ilusão do dourado dos cabelos de Ursula, uma musa distante.

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