Miscelânea
2004
Eu
pude acompanhar alguns fatos no final de ano, com nítidas
conexões com o Marketing, que não resisti ao
ímpeto de escrever a respeito. Esta miscelânea
de assuntos tem o intuito de mostrar um outro lado do cotidiano
para os marquetistas (quem não entendeu o termo deve
ler artigo publicado nesta página da ABMN).
Um primeiro comentário refere-se ao que ocorreu na
loja do McDonald´s, na Avenida Braz Leme, em São
Paulo. Numa iniciativa muito interessante para ampliar o relacionamento
entre a empresa e o cliente, foram instalados quatro computadores
com acesso rápido à internet, numa área
interna bem nobre.
Qualquer funcionário pode liberar o uso para adultos
ou crianças, dando um tempo de acesso para que mais
pessoas possam se utilizar daquele recurso em seu lazer. Tem
adulto que acessa matérias de jornais e revistas, crianças
que jogam de tudo um pouco e adolescentes que desenvolvem
seus próprios blogs (e chamam seus pais para
mostrar o resultado de sua criatividade). Enfim, em torno
da central virtual pressupõe-se haver um movimento
agradável e familiar.
Tudo isso seria extremamente estimulante, não fosse
o fato de que... roubaram o mouse! Em outras palavras, um
serviço prestado pela empresa ficou prejudicado pela
postura deplorável de adolescentes (bandidinhos do
futuro?!) ao mesmo tempo em que os usuários em potencial
irritam-se pela indisponibilidade de estações,
sem atentar ou saber que a culpa direta não cabe à
empresa.
Lição número 1 - ao investir numa novidade
para ampliar o relacionamento com os clientes, pense bem em
como vai manter a sua continuidade, seja por possíveis
problemas naturais e corriqueiros, como também pela
ação marginal indesejada.
Um outro caso interessante, pessoal e que vale a pena abordar,
deu-se com a Vasp. Como qualquer viajante assíduo,
que se beneficia de programas de fidelidade das companhias
aéreas, este articulista está inscrito em todos.
E foi ao trocar os meus bilhetes de embarque que o inusitado
aconteceu.
Antes, vale a pena comentar que a Vasp, cujos vôos de
Ponte Aérea Rio de Janeiro - São Paulo não
são nem melhores e nem piores que os das concorrentes,
troca 9 bilhetes por uma nova viagem. Para isso, é
feita a conferência de um a um, a partir do nome do
passageiro, vôo e data real de embarque.
Pois bem, dois bilhetes correspondiam a uma viagem que fiz
com a ida no trecho RJ-SP, realizada em 10 de Outubro, e a
volta dois dias depois. E, por mais que a atendente tentasse
"me encontrar" nesses vôos, com toda a simpatia
e cordialidade diga-se de passagem, o esforço foi infrutífero.
Que as viagens foram feitas era incontestável, dada
a existência dos bilhetes de embarque (e, ainda mais,
a compra das passagens foi feita na mesma loja). Os contatos
com a Central de Atendimento da empresa também resultaram
em vão. Em suma, eu "não estive" naqueles
vôos...
Vale registrar, a solução dada usou um código
interno da Vasp, e o bilhete de cortesia foi então
liberado. Nada a reclamar do atendimento ao cliente o qual
foi, como já afirmei, exemplar. Mas, vem então
a pergunta que não quer calar: se o avião tivesse
caído e todo mundo morresse, a exemplo do caso fatídico
da TAM, como ficaria o seguro desse "passageiro fantasma"?
É claro, eu não estaria vivo para reclamar e
meus familiares não teriam a prova documental de que
eu havia embarcado no vôo. Enfim, eu seria mais um daqueles
casos em que o corpo desaparece e a família fica amarrada,
seja sob o ponto de vista da regularização de
bens ou, pelo menos, dos direitos e deveres em nome do "falecido".
Vejam só como um simples erro operacional ou de sistema
pode ter conseqüências dramáticas, Essa
perspectiva trágica (para mim, pelo menos...), no entanto,
foi amenizada pela maneira atenciosa e rápida como
o assunto foi conduzido.
Lição número 2 - Nas situações
mais absurdas que possam existir entre uma empresa e seu cliente,
e mesmo quando as evidências estão a negar os
direitos, analise o histórico do relacionamento, use
o bom senso e decida em favor do cliente. A empresa vai ganhar
ao longo do tempo.
Um terceiro ponto que vou citar rapidamente, mas que voltarei
a abordar com mais detalhes, diz respeito à gigante
transnacional Parmalat, cujos balanços irreais estão
trazendo danos incalculáveis a muita gente. Aliás,
bem antes disso, o relacionamento com as cooperativas de leite,
aqui no Brasil, já mostrava uma face forte da empresa,
sempre muito criticada pelas práticas duras de negociação.
Seguindo o rastro de exemplos similares, principalmente das
empresas americanas, será que a prisão das lideranças
executivas será temporária? E outra pergunta:
da mesma maneira que a Andersen pagou o preço pela
auditoria fraudulenta da Enron, o que acontecerá agora
com a Grand Thornton e a Deloitte & Touche? O absurdo
será dar seqüência a justificativas de que
elas "nada sabiam".
Lição número 3 - No mundo empresarial
não vale a estratégia do "nada a declarar"
ou "nada sei". A Enron e a Andersen foram para o
buraco por enganarem o mercado, e vamos ver como evoluirá
esse escândalo da Parmalat e suas auditorias. Um corolário
necessário, é a de que essa lição
não se aplica integralmente no Brasil, pois há
exemplos indigestos de falcatruas perambulando pelas gavetas
da burocracia governamental...
Por fim, alguns profissionais de Marketing pediram-me para
abordar três assuntos polêmicos, em futuros artigos.
Ainda vou fazer meus próprios levantamentos antes de
emitir a minha opinião, mas quem quiser adiantar a
sua, pode enviar uma mensagem, com seu comentário,
para as seguintes questões:
a) Os jovens executivos, com seus MBA e o acesso rápido
a postos gerenciais em grandes empresas, estão sendo
arrogantes em excesso? Querem usar do poder de posição
para transmitir uma imagem de competência e poder decisório
que, de fato, não têm?
b) Quais as conseqüências que os atuais impasses
diplomáticos entre o Brasil e os EUA, nos procedimentos
relativos à imigração, poderão
trazer para o mercado de turismo? O prefeito do Rio de Janeiro
tem razão em querer evitar a aplicação
da decisão judicial de fichar americanos que chegam
ao país?
c) O que vai acontecer, mercadologicamente falando, com a
evolução pública da briga entre a Refrigerantes
Dolly contra a Coca-Cola?
Vamos ficando por aqui e até a próxima semana.
Vocês já perceberam que o ano começa com
boas e abrangentes polêmicas. Não deixem de dar
suas opiniões!
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