Tô nem aí...

Parece-me que três músicas foram inconscientemente inspiradas num Brasil atual. Mas mesmo que não o tenham sido, cabem muito bem como resumo de uma semana complicada de depoimentos e reuniões na capital federal.

Lembrei-me, dias atrás, de uma conversa que tive com amigos estrangeiros, durante um evento acontecido em 2002, na Europa. Naquela oportunidade, fui questionado sobre esse folclore de que no Brasil tem “lei que pega e lei que não pega”. E confesso que foi difícil tentar esclarecer essa criação tupiniquim.

A minha linha de argumentação, passível de questionamento por quem quer que seja, buscou traduzir o distanciamento que a população brasileira, no geral a mais humilde, tem do cotidiano político e econômico. É a típica situação de que “vou tocar a minha vida cá” e “eles que se virem por lá”. Aliás, em bares, rodinhas e festas sempre foi diversão nacional falar mal do governo.

A bem da verdade, não se pode ignorar que o desrespeito à legislação nasce em diferentes classes sociais. O comum é encontrar parcelas da sociedade que acabam cumprindo apenas as leis que lhes são mais confortáveis, cada uma a seu modo, desligando-se da realidade e dos demais contextos que as cercam.

Agora, em meio ao turbilhão de denúncias que devastam a imagem de vários membros de um dos três poderes constituídos, que é o Legislativo, autoridades ligadas ao outro poder, o Executivo, procuram demonstrar frieza, distância e, principalmente, também desconhecimento de causa. Afinal, para qualquer pessoa é fundamental não ter impressões digitais nessa cumbuca (ou mala?)!

Não podemos nos esquecer que, a esta altura, começam a ocorrer muitas apostas na expectativa de isenção e no posicionamento do Terceiro Poder, o Judiciário. Ainda que seja um ator por demais importante da vida nacional, nem sempre este carregou o glamour e atraiu os holofotes da imprensa. Parece que chegou a sua vez de aparecer!

Num momento em que especulações de risco avançaram sobre a figura do Presidente da República, por conta das denúncias e investigações acontecidas em comissões parlamentares de inquérito, imediatamente uma alta figura do governo americano veio ao Brasil mostrar solidariedade e confiança no governo brasileiro. Vale tudo em nome da tal de governabilidade.

A economia mostra-se sólida, segundo o Banco Central, mas pode ser frágil, segundo o principal mandatário do país. Alardeiam-se ganhos para a sociedade através de conquistas sociais mas são inúmeros os problemas de que se tem notícia. Saúde, transporte, segurança, educação e cultura têm verbas contingenciadas objetivando conquistar o esperado superávit fiscal.

A par de um cenário precário nos hospitais e na segurança do cidadão, bem como da falta de recursos para a manutenção adequada do patrimônio público, os bancos lucram de maneira fantástica por conta de um alto patamar na taxa básica de juros. Um dos mais reconhecidos endereços bancários do Brasil acaba de registrar, no país, o maior lucro semestral em toda a história dos bancos, alcançando a cifra próxima de R$ 2,5 bilhões.

Buscando conhecer a opinião da população sobre todo esse quadro conturbado e contraditório, incluindo projeções para as eleições gerais do ano próximo, um competente instituto fez recente pesquisa. Especialistas afirmaram, então, que os resultados mostram o extrato social menos instruído como desinformado. Isso ocorre, apesar de toda a cobertura que a mídia tem dado aos estragos causados pelas atitudes contestáveis dos agentes do ilícito.

Em rápidas palavras, uma grande parte do nosso povo continua agindo como se de nada soubesse, entendesse ou visse de repercussão na sua vida futura e na de cada cidadão. Por outro lado, respaldado até pela avaliação positiva que tem, o presidente Lula assume-se isento de qualquer responsabilidade pela crise política e viaja pelo país. Nos eventos a que comparece, os discursos são elementos presentes para reforçar as idéias e teses de quem lidera pesquisas para governar o país de 2006 a 2009.

Ou seja, o “hit parade” oficial parece continuar tocando a harmoniosa e gostosa música que diz “deixa a vida me levar, vida leva eu”. Enquanto isso, uma grande parte do povo continua agindo exatamente como diz o título de outra música. “Tô nem aí” quase já virou um hino de momento para reforçar o folclore que atravessou fronteiras.

Ah! Havia uma outra música sendo tocada, mas que foi recentemente suspensa durante as investigações políticas em curso. Esperemos que a bagunça preconizada pela “Festa no apê” não volte a ter lugar nessa parada de sucessos...

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