De propinas e bruxos
Eu identifiquei dois fatos do cotidiano sobre os quais não resisti ao ímpeto de escrever a respeito. Esta miscelânea de assuntos tem o intuito de abrir frentes de polêmica com os amigos marquetistas (quem não entendeu o termo deve ler artigo já publicado sobre o assunto).
Começo por perguntar se vocês conhecem a chamada Contribuição de Intervenção no Domínio Público. O nome é esquisito, mas você paga diária e religiosamente aos cofres públicos federais, faça chuva ou sol. Ela foi criada com o mesmo conceito que a já tão popular CPMF, que começou provisória e ficou permanente.
Aquele nome, que parece tratar de coisa séria, leva a sigla CIDE. Ela refere-se a um valor cobrado em cada litro de gasolina, de maneira a formar um fundo para a recuperação da infra-estrutura brasileira. Foi criada ao final de 2002 e, em simples palavras, uma de suas aplicações seria na recuperação de estradas. Até o momento, foram recolhidos cerca de R$ 20 bilhões (com b, mesmo!).
Certamente, você não vai acreditar que a CIDE está sendo aplicada devidamente, não é? Quando você pega estradas federais já deve começar a rezar, tamanha a destruição em que se encontram. Algumas não permitem velocidade superior a 10 km/h em certos trechos, como na Rio-Bahia, por exemplo. E então se constata como válido um dogma da arena de negócios: não há espaços que fiquem vazios.
Enquanto o Governo Federal retém o dinheiro da CIDE para cumprir com o objetivo de ter um superávit fiscal, e ao mesmo tempo alega não ter recursos para fazer aquilo que nós pagamos e deveria estar sendo feito, o que descobriram os moradores vizinhos aos buracos dessas estradas?
Eles ficam com pás e carrinhos de mão, tirando terra do acostamento e tapando, como podem, os buracos. Terra que a primeiras pancadas de chuva ou as rodas de um caminhão mais pesado vão espalhar. Colocam placas em formato de anúncios rudimentares, bem no meio da pista (isso mesmo, no meio da pista), avisando que estão colaborando com os motoristas e pedindo auxílio. E dá-lhe de receberem uma gorjeta aqui, outra ali. Aliás, gorjeta não, pagamento por serviços prestados!
Ou seja, a ineficiência do poder público gerou um espaço vazio que precisava ser preenchido. E o brasileiro, com a sua admirável capacidade de improvisar para resolver problemas, acabou criando um espetáculo inimaginável: uma ação entre amigos, que gera receita e ajuda terceiros. Pontuando assim é até bonito ou pitoresco, não fosse uma enorme vontade de chorar pelo absurdo do cenário.
Na esfera das crenças, no Brasil conseguiu-se muito explorar essa tendência do brasileiro em acreditar em histórias mal contadas e no que se propaga como verdade. Até mesmo, uma vez, a esperança venceu o medo, apesar de que hoje o chavão ficou desgastado. Mas olhem o incrível que Ronaldinho Gaúcho foi capaz de conseguir por estas terras.
Um recente vídeo, produzido pela Nike, mostrou o jogador fazendo embaixadinhas. Depois, sem a bola bater no chão, por quatro vezes chutou-a da entrada da área. A bola batia na trave e voltava para o controle perfeito do craque brasileiro. Truque, montagem, isso é impossível bradavam alguns! Ele e a Nike garantiam que a cena era verdadeira.
Pois a polêmica correu mundo e a página da empresa foi acessada por milhões de pessoas para baixarem o arquivo com o filme. Produção, aliás, que divulgava uma nova linha de chuteiras da famosa marca. No Brasil, uma sondagem de opinião mostrou que 52% dos entrevistados realmente acreditavam que o jogador fosse capaz de uma proeza daquela, digna de um lugar no Guinness Book.
Após um tempo, passada a euforia do inusitado, soube-se que efetivamente tudo era um truque de edição. O importante é que esse caso se mostrou um exemplo fantástico do recentemente apelidado Marketing Viral. Ou seja, a dúvida, a crença e a polêmica estimulam a troca de mensagens e arquivos entre as pessoas, numa modalidade tecnológica do antigo Marketing Boca-a-Boca.
Tudo lindo, maravilhoso, não fosse a constatação de que o brasileiro continua a acreditar em façanhas. Parabéns ao Ronaldinho, que hoje mostra o quanto a imagem de competência é importante para qualquer marca. A grife do jogador, além de ser forte para ganhar o título de melhor do mundo, já está ganhando força para conquistar espaços extraterrestres. O brasileiro acredita nisso!
Ainda bem que ele não jogava futebol na época da Inquisição. Ou será que morreu como bruxo, com uma alegada competência inacreditável, e nós nada sabemos?
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