Da
imagem e da realidade
O
dia é 1° de Março de 2004, cerca de 22:30h.
Assalto e confusão no Rio de Janeiro. E eu estava lá!
Para quem não conhece o Rio de Janeiro, são
duas as ligações entre a Barra da Tijuca e a
Zona Sul, cantada em verso e prosa com referências ao
Leblon, Arpoador, Leme, Ipanema e, principalmente, Copacabana.
Uma dessas vias, bem antiga, é a Avenida Niemeyer e
a outra é o Túnel Dois Irmãos. Pois bem,
dá para imaginar um assalto dentro do túnel,
com a confusão de carros voltando de ré e outros
manobrando, tomando a contra-mão, tudo isso para as
pessoas fugirem da sanha criminosa de bandidos audaciosos?
Eu estava lá e, para minha sorte, o retorno foi a tempo.
Então, mais aliviado, o caminho escolhido foi a Niemeyer.
Diferentemente do túnel, que passa sob a favela da
Rocinha, essa avenida beira a favela do Vidigal, onde havia
um policiamento ostensivo logo na entrada. Dada a quantidade
de viaturas, perto de um dos hotéis mais finos da cidade,
o Sheraton, ficava evidente que o clima por lá não
era nada agradável...
E eis que chega o grande dia, e a vida lhe cria uma situação,
uma necessidade, enfim, dá o motivo que você
precisava para ficar mais próximo com ela. E esse poderá
se tornar um momento inesquecível, pois ela lhe agradou
mesmo e, mais que tudo, superou suas expectativas.
E, no dia seguinte, qual não foi a minha surpresa ao
tentar saber, com mais detalhes, o que acontecera?
Nenhum, absolutamente nenhum jornal carioca noticiou o assalto
que ocorreu dentro do túnel, talvez por não
ter havido vítimas fatais. Nada, nem uma só
notinha. Pois bem, na terça-feira eu comentei o fato
com um motorista de táxi que eu conheço e de
quem costumo utilizar seus serviços. Sabem o que eu
ouvi? Que ele e outros colegas têm passado por esse
problema, em várias regiões da cidade, sendo
que, na semana passada, um assalto se deu em frente à
sede da Prefeitura. E ele também não leu nada
sobre isso nos jornais.
A minha impressão é que esse tipo de assalto
está tão comum, que as estatísticas de
violência só apontam quando há mortes.
Nem interessa mais ao leitor, muito menos às autoridades!
Diferentemente do caso desta última 4ª feira,
dia 3 de Março, quando uma briga de traficantes deu
início a um tumulto generalizado em Pavão-Pavãozinho,
o que paralisou importantes vias do bairro de Copacabana.
Até de madrugada, muitos moradores não podiam
sequer chegar em suas casas, mesmo a pé. Vai daí,
imagens do vandalismo já devem ter percorrido o planeta!
Enquanto isso acontece, as autoridades tentam mostrar o Rio
de Janeiro como um local aprazível, a Cidade Maravilhosa
que tanto encantou o mundo no passado. A Prefeitura até
patrocina clubes para estampar uma chamada dos Jogos Pan-americanos
de 2007 em seus uniformes. E tenta trazer os Jogos Olímpicos
de 2012 para o Brasil. Desafio hercúleo, em meio a
uma verdadeira guerra urbana, que não se sabe onde
vai parar. O pior é que passa a ser naturalmente aceita
essa cultura de violência e silêncio, como forma
de não macular a imagem do principal destino turístico
do país.
Uma coisa que as autoridades cariocas talvez não se
tenham dado conta é que a receita obtida pelo turismo,
num ano, está ao redor de R$ 2,8 bilhões para
visitantes estrangeiros e R$ 5 bilhões para visitantes
brasileiros (metade disso é de paulistas). E a cultura
da violência começará por afastar brasileiros
da cidade, que hoje já perde receita também
pela fuga de empresas e corporações para outras
localidades.
Ora, este é um caso fascinante de Branding. Até
quando o crédito de imagem positiva do Rio de Janeiro
(seja para fins turísticos ou empresariais) irá
suportar uma realidade tão dura e triste? Até
quando as belezas e o clima da cidade irão motivar
pessoas a correrem os riscos que o cotidiano de vida está
impondo? Quais os reflexos, no exterior, dos quase 200 assaltos
de que turistas estrangeiros foram vítimas somente
no Carnaval?
Em meio a esse caos instalado, quando os cidadãos ficam
à mercê da sorte e do destino, vale trazer esse
assunto à tona sob uma visão de negócios:
a tendência, no médio prazo, é que sempre
a percepção de imagem e a realidade constatada
se aproximem, não importa quanto investimento se faça
em construção de marca. Em sendo assim, ou se
acorda para adotar uma rápida providência ou
então, até para o Cristo Redentor, será
difícil tomar conta dessa cidade...
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