O taxista e suas mulheres

- E aí, dotô, tudo de bom? - e assim começava a corrida de táxi com um motorista conhecido, do ponto que costumo freqüentar, a quem eu não via há semanas.

- Tudo na paz. E as novidades? - perguntei, dando chance para a conversa evoluir.

- Este país num tem jeito, tá tudo errado! Nem Jesus Cristo nesta terra pra resolver...

Aquele homem, nos seus quase 30 anos, comete pecados na forma de falar, mas tem uma presença muito marcante, é conversador, simpático e bem ligado no que se passa à sua volta. Reclamou dos guardas, dos impostos, da ladroagem, do governo, da inflação, enfim, era difícil dizer o que mais o incomodava. E aí apareceu a grande novidade:

- E além disso tudo, agora tem essa novela mostrando um taxista taradão, faturando três mulheres duma vez só! Uma mais gostosa do que a outra, todas ligadonas no homem.

E eu entrei no jogo e brinquei com ele, dizendo que isso era bom para dar moral aos taxistas, pois muitas mulheres iriam querer saber se a fama é para valer ou não. E ele ainda lembrou-me de uma matéria jornalística recente, motivada pela própria novela, mostrando romances que nascem entre motoristas e passageiras. E completou:

- Êta problemão danado! Eu malho de sol a sol, tenho dois filhotes pequenos pra cuidar e nem consigo transar direito com a patroa. Agora, com essa novela, todo dia ela quer saber onde fui, porque atrasei, é um inferno!

- Mas vai dizer que você nunca fez suas farras, de vez em quando? - provoquei.

- Dotô, por essa luz que me ilumina, eu sempre fui fiel, até porque a grana não dá pra essas sacanagens, não. Mas com essa novela a coisa apertou pro meu lado. Basta atrasar no horário e a patroa fica pegando no pé. Isso me injuriou tanto que resolvi mudar. Ora, pra que pagar o pato e num aproveitar?

Ele começou a falar de uma mulher que pega o táxi no ponto, funcionária de uma empresa da redondeza. E a descreveu como uma "coroa enxutassa, casada com um executivo que vive viajando. Usa sempre uma roupa provocante, deixando aparecer as belas pernas". Mais de uma vez, ela falou que o marido estava fora, que se sentia só e acabava perguntando se o taxista não queria jantar com ela.

- Dotô, eu sempre fugi, porque é muita areia pro meu caminhãozinho...Mas resolvi conhecer de perto o material. E a sacana me levou para um motel chique, vê se pode! Eu sei é que jantar num teve, só uma transa maluca. A mulher estava no cio, gritava de fazer dó. Êta coisa boa, sô! E quando deixei a dona em casa ganhei uma grana extra pra compensar o tempo que gastei com ela. Tem coisa melhor que isso?

- Mas você não disse que era fiel à sua mulher, que taxista tarado é coisa da novela?

- Eu fui fiel, dotô, eu fui. E só me liguei nessa história porque a patroa começou a me cobrar mais da conta. Eu num devia nada e ela me cobrava. Então, já que é assim, agora tá tudo bem: ela pergunta, eu invento uma história qualquer e, no final, a coisa se ajeita. O dotô conhece o ditado de que quem nunca comeu o mel quando come se lambuza? Meu caso! Tô me lambuzando direto!

Quando cheguei em casa, e lembrando do assunto, comecei a rir sozinho. É a novela brasileira, mais uma vez, criando hábitos, costumes e atitudes em nossa sociedade doida.

<< voltar - | - imprimir