Amando e aniquilando...

Como resumir em poucas páginas, teses e conceitos defendidos à exaustão por profissionais do maior gabarito, que estudam o comportamento humano no estado da paixão? Será verdade que os apaixonados tentam dominar um ao outro?

Essa possível necessidade de dominar ou aniquilar, presente nos casos de paixão, foi parte de uma matéria publicada há tempos, no jornal Folha de São Paulo, explorando um conceito associado à expressão "dionisíaca". Friedrich Nietzsche definia o mundo como dionisíaco, com sua necessidade de criar e de aniquilar.

Segundo Nietzsche, dionisíaco é o mundo, pois cada mudança segue outra, sem parar, e dionisíaca é também a vida, que tem força orgânica em todos os seres vivos, mas vive sempre às expensas de outra vida. E é na questão do amor-paixão que a visão dionisíaca se coloca, segundo Nietzsche, como o supremo momento de um pensador. O conceito de amore fati foi explicitado de maneira bem objetiva. Nem é resignação, nem conformismo, nem submissão: é amor. Nem é lei, nem é causa, nem fim: é fato.

Um dos grandes exemplos conhecidos em que o amor e a resignação mantiveram um relacionamento, apesar das constantes demonstrações de infidelidade, é o de Karl Marx. Jenny Marx viveu ajudando o marido na redação de suas teses, e muitas vezes não tinha como se alimentar, não fosse o auxílio do amigo Engels. Agradava-lhe a atenção de Karl, acompanhada de frases românticas, e aceitou até o envolvimento dele com a prima Nanette, bem como o filho que ele teve com a empregada da família, Lennchen.

Quantas vezes não ouvimos o ditado popular que afirma serem o amor e o ódio as duas faces de uma mesma moeda? A paixão, sentimento que se disfarça ora de um jeito, ora de outro, já foi tema de muitas tragédias e crimes passionais, e tem como fatores presentes a aventura, o proibido, o desafio, o inatingível e as emoções que exacerbam os sentimentos dos envolvidos.

Talvez, por essa razão, é que as loucas histórias de paixão normalmente são aquelas que envolvem dificuldades, pressões, preconceitos, restrições ou grandes limitações para o relacionamento. O exemplo mais conhecido é o do adultério, quando pelo menos um dos parceiros é casado. Um outro exemplo para as paixões extremas é no caso de homossexuais, que ainda hoje enfrentam preconceitos sociais.

Numa interpretação objetiva, pode-se dizer que há um inevitável traço de obsessão que pode levar a paixão para perto da violência, em diferentes níveis, de pessoa para pessoa. A violência não é parte integrante do sentimento de paixão, nem desejada pelo apaixonado, mas se instala aproveitando os desequilíbrios de comportamento gerados pela paixão. O túnel do tempo que leva à separação dos apaixonados, às vezes, chega a desembocar em cenários de violência e mesmo mortes.

Em outras palavras, o comportamento humano é o resultado de uma combinação entre biologia e psicologia, mas com alta influência das ocorrências amorosas na vida. Dessa forma, analisar comportamentos sem aceitar que o sexo é a base da essência humana passa a ser um exercício inútil. Conhecer essa linguagem é positivo mesmo nos momentos de louca paixão, na hora da explosão do vulcão interno do apaixonado, pois permitirá uma nova forma de encontro humano.

Quanto à paixão, pode o leitor ter a certeza de que no seu auge há sempre a ilusão de que aquele é o "amor ideal". O outro está eleito por ter sido bem classificado, em nossa mente, num processo de idealização. Tal cenário favorece, inevitavelmente, a atração, o que dará vazão aos instintos originados dessa idealização.

Um cuidado que deve ser tomado é o de evitar os jogos da vida, que a análise transacional tão bem define. Quando uma pessoa não está em harmonia e em equilíbrio entre corpo e alma, é comum desempenhar papéis, inconscientemente, muitas vezes forçando o(a) parceiro(a) a lhe dedicar mais atenção, seja por assumir uma postura de vítima ou de perseguidor do outro.

É preciso maturidade para não se deixar envolver por esses jogos de comportamento, principalmente quando o relacionamento está ruim, pois o desenrolar do processo, dependendo do estado psicológico de cada parceiro, pode levar a momentos desagradáveis, senão trágicos. Concluindo, de nada adianta querer dominar e ter o poder sobre o outro. A paixão é um período de conflitos, em que ela cumpre sua missão: ser única, intensa e eterna, enquanto durar, frase muito bem formulada por Vinícius de Moraes.

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