Do amor e da paixão

Se com o teu valor santo, ó Amor, podes fazer a cada vez que ela apareça, eu viver neste fogo, ficarei feliz, e tanto, que até mesmo no maior revés, a vida será alegria e a morte um jogo.

E, por todo o sempre, os meus versos chamá-la-ão Senhora e a ti meu Deus.

Será que essas palavras mostram um ser enamorado ou um apaixonado? Terão sido meras palavras para transmitir uma ficção ou será que um verdadeiro sentimento orientou a pena desse autor desesperado?

É interessante como a temática amor-paixão mostrou-se ser , ao longo dos tempos, talvez o principal combustível para alimentar a energia dos artistas, independentemente de sua área de especialidade.

Mas, é claro, independente da qualidade de uma produção, sempre podemos repetir as perguntas acima, pois todos temos a curiosidade em descobrir quando um autor retrata sua própria e real história, mesmo que alterada em algumas passagens, ou apenas o fruto de sua fértil imaginação.

Será possível que um ser humano, por mais talentoso que seja, consiga transmitir a força de uma paixão, com todas as suas cores e tintas, apenas conjugando palavras que descrevam um sentimento virtual?

Pois bem, é claro que essa é uma boa polêmica, em que encontraremos até mais de duas correntes. Pois, como defendem os orientais, a verdade não é única, nem necessariamente o resultado de uma escolha binária. Nem a paixão intensa está reservada apenas ao seres humanos mais sensíveis ou emotivos, como os artistas em geral o são.

Desculpem-me os puristas da língua, mas "paixão intensa" é uma extravagância de linguagem. A paixão é sempre dominadora, cruel e intensa, tanto mais ao envolver todo o metabolismo do corpo humano num movimento orientado ao objeto de sua causa. E, pasmem, encontramos humanos que se dizem resistentes a esse louco momento, pois que colocam a razão acima da emoção!

Entre tantas histórias famosas de amor e paixão, ambos sentimentos fortes mas que se diferenciam fundamentalmente pelos hormônios que fazem circular pelo corpo humano, algumas se tornaram muito marcantes. Tristão e Isolda, Tännhauser e Elizabeth, entre tantos, são personagens que notabilizaram o jogo da paixão. Que também foi retratado pelos versos de Camões a sua amada chinesa Dinamene.

Nas águas da paixão e do amor, platônico ou consumado, também caminhou Dante Alighieri, transformando Beatriz numa fonte constante de inspiração, a ela transferindo a idealização de pureza e perfeição. Usou de sua A Divina Comédia para comentar sobre um lugar especial, no inferno, para que os sedutores possam pagar seus pecados. E incluiu, na sua obra, uma personagem, Francesca de Rimini, inspirada em paixão realmente vivida pelo autor.

Ao utilizar os exemplos acima, baseados em alguns dos mais famosos escritores de todos os tempos, estamos trabalhando com símbolos no tema deste artigo. E seria absolutamente impossível, num breve espaço como este, viajar pelas obras de todos esses fantásticos seres humanos que dedicaram sua vida a serviço da emoção, ao longo da história da humanidade.

Maquiavel, cujo nome está associado a uma aura de fascínio que cerca os estudiosos do pensamento político, mesmo sendo de absoluta racionalidade em suas idéias, também se perdeu pelos meandros da paixão avassaladora, enquanto casado com Marietta Corsini. Em 1515, envolveu-se com a atriz Barbera Salutti, correu o risco de viver escândalos, e dedicou a ela versos especiais em Mandrágora.

Resumiu o estado que sente o ser dominado pela paixão, ao escrever uma carta ao amigo Vettori, dizendo: "acredito, sempre acreditei e vou continuar acreditando no que falava meu amigo Boccacio, de que (na paixão) é melhor viver e se arrepender do que não viver e se arrepender do mesmo jeito".

Nosso interesse foi trazer à tona o quanto o amor e a paixão servem de referência ou orientação ao cotidiano de vida das pessoas, leitores e autores. E, para alguns, como Maquiavel, que criou as palavras de abertura deste texto, sua competência permitiu-lhe construir uma obra com base em sua pessoal e forte emoção e, então, vivenciá-la. Ou, o contrário, não se sabe bem ao certo.

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