Mais um ano, mais um século!

Os leitores deste jornal estão acostumados a nele encontrar um conto ou uma crônica, formas que os escritores usam para resgatar possíveis situações do cotidiano, inclusive dando-lhes tempero especial quando desenvolvem alguns personagens em suas histórias. Em meu caso, nas oportunidades que tenho para dar asas à ficção, o cenário se molda em tons de erotismo, com as cores típicas do amor e da paixão. E da liberdade de sentimentos. Como forma e conteúdo.

Nessa mesma linha, muitos escritores notabilizaram-se por levar idéias e ideais ao papel, fazendo da escrita uma arma de revolução pacífica para tentar mudar rumos, mostrar posições, influenciar na política ou nas questões sociais. Mais que isso, e acima disso, defender direitos. E, sem sombra de dúvida, foram vários os nomes famosos que enfrentaram o poder, sem medo das conseqüências.

Ao longo da história da humanidade, muitas épocas foram marcadas até pelas dificuldades em publicar textos, com na Inquisição, em meados do século XVI. Em 1559, por exemplo, a Igreja publicou uma relação de obras proibidas, coibindo a liberdade de exaltar o amor. Como se o amor fosse fácil de se submeter ao domínio!


Mas a força da vida e a busca dos valores mais fortes do ser humano superam a censura. E, mais importante, o poder arbitrário dos homens nunca conseguiu castrar a luta das mulheres em defesa de uma posição de igualdade, social e profissional. Hoje, ainda que esse quadro seja perverso, muito do caminho dessa busca já foi positivamente percorrido.

Agora, em que o ano de 1999 corre rápido, logo estaremos completando outro século da humanidade. Daí, agrada-me lembrar o quanto as mulheres deram de si, com algumas comprometendo anos de sua vida para viver crenças e valores mais íntimos, mesmo que contrariando as tradições e o conservadorismo vigentes em cada época.

Hoje em dia, com os meios de comunicação mostrando fatos, alegres ou tristes, no momento em que acontecem, as mulheres que batalham pela igualdade levam suas mensagens mais facilmente, deixando em papel ou vídeo-tape um registro para o futuro. Mas, como será que os últimos 2000 anos acompanharam esse processo, através da pena de autoras talentosas?

É claro, seria impossível uma referência precisa e acima de críticas, pois sempre algum nome irá faltar. Mas, porque não tentar, mesmo com esse risco?

Ainda antes da era cristã, em 600 AC, a poetisa grega Safo defendeu o amor em seus trabalhos e deu origem ao termo safismo, depois conhecido como lesbianismo. Amante de Alcaius, preferiu perder as benesses a que tinha direito para, então, desenvolver sua vida com liberdade. A importância dessa mulher ficou marcada pelo fato de Platão tê-la chamado de A décima musa. Vale lembrar que, pela mitologia, eram nove as musas, filhas de Júpiter e Mnemosyne, e cada uma delas possuía um atributo especial em artes, habilidades ou conhecimentos.

O tempo foi passando e a luta das mulheres por direitos e melhores condições continuava. No campo da literatura, no Ocidente ou no Oriente, elas apareciam mantendo a esperança para um enorme contingente de anônimas que, pelas mais diversas razões, seguiam se subordinando ao preceitos de cada período e região. Um exemplo pouco conhecido é o da escritora japonesa Shikibo Murasaki que, no início do século X, escreveu um conto sobre as aventuras amorosas de um príncipe com suas amantes.

Marie de France, quase dois séculos depois, usava de seus romances para mostrar o quanto era importante a mulher escolher o seu homem, ao contrário dos padrões de ser a eleita, para alguém, atendendo interesses familiares. E vejam que ela vivia em plena corte francesa!

E a luta continuou, mesmo em tempo de Inquisição. Vale comentar que Louise Labé foi uma escritora francesa de contos eróticos, através dos quais defendia sua convicção de que a paixão entre duas pessoas é feita de carne e pele. Apesar de casada com um nobre, por dote de sua família burguesa, vivia sua intimidade com um amante diplomata. No final do século XVIII, Germaine de Staël repetia, em sua vida pessoal e nas suas obras, o legado de Labé.

Na mesma época, Amandine Aurore Lucie Dupin, mais conhecida pelo pesudônimo George Sand, separou-se do nobre marido para ter a liberdade da escrita e, depois, apaixonou-se pelo artista francês Musset. A Inglaterra não ficou para trás, tendo em Mary Wollstonecraft uma feminista que defendia a igualdade entre os sexos, em especial no amor.

No início do século XX, foi a francesa Sidonie Colette quem assumiu um lugar nobre, ao descrever em suas obras a satisfação que a mulher tem ao viver suas emoções com um homem e, depois, garantir a própria individualidade, não precisando se submeter a ele a não ser pelo prazer. Na mesma linha, na mesma época, surgiu a espanhola Florbela Espanca.

Nestes últimos 100 anos, como dissemos, os registros históricos estão mais presentes, no mundo e, particularmente, no Brasil. Num período marcado por guerras, ditaduras de toda ordem, conflitos étnicos e sociais, a par de incríveis conquistas tecnológicas, enquanto o homem foi à Lua a mulher continuou avançando na defesa de seus direitos, no trabalho e na vida.

Com a capacidade de gerar seus descendentes no próprio ventre, a mulher vem, crescentemente, tendo a competência de ser independente do pai biológico para cuidar de sua prole. Cada vez mais, encontramos mulheres que educam e sustentam seus filhos sem precisarem se submeter a alguém. A esperança que percebemos nelas é a do encontro com o amor verdadeiro, sentimento que permite e exige uma entrega por vontade própria, e que é desobrigado de qualquer outra forma de pressão ou coação.

E, para não dizer que esqueci das escritoras brasileiras, hoje Raquel de Queiroz é um exemplo de imortal da Academia Brasileira de Letras. Foi essa mesma entidade que, em 1979, conferiu o prêmio Machado de Assis a Poesias Completas, obra de outra eminente artista, Gilka Machado, falecida em 1980. Como as demais escritoras citadas, e num momento em que a televisão lembra a saga de Chiquinha Gonzaga, Gilka também ousou publicar obras em que defendia o direito da mulher sobre seu sentimento e seu corpo.

Finalizando, quero repetir trecho de um poema desse livro premiado de Gilka Machado, que teria completado 100 anos em 1993. Preferimos escrevê-lo em forma de prosa. Com isso, estamos homenageando todas as mulheres em sua luta pela igualdade de direitos, incluindo as famosas e anônimas que, inadvertidamente, este escritor cometeu o pecado de omitir.

Nosso destino, poetas, é o destino das cigarras e dos pássaros: cantar diante da vida, cantar para animar o labor do Universo, cantar para acordar idéias e emoções. Porque no nosso canto há um trigo louro, um pão estranho que impulsiona o braço humano e os cérebros orienta, uma hóstia em que os espíritos encontram, na comunhão da beleza, a sublimação da existência. O mundo necessita de poesia, cantemos alto, poetas, cantemos!
(Gilka Machado - 12/3/1893 a 11/12/1980)

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