Símbolos
e convescotes
O
amigo Marcone Formiga comanda uma publicação
semanal muito interessante, abordando o que acontece pelos
lados da nossa Capital. O Brasília em Dia tem
se mostrado moderno, instigante e com uma excelente cobertura
jornalística. Na edição correspondente
à primeira semana de dezembro, numa matéria
muito bem feita, entrevistou o jovem cineasta Erik de Castro.
Eu conheci o Erik há dois anos atrás, quando
ele lutava por patrocínio para completar a produção
de um filme, com toda a expectativa de concluir seu documentário
sobre a atividade da nossa Força Expedicionária
Brasileira, durante a Segunda Guerra Mundial. Era impressionante
o brilho no olhar do Erik, a cada vez que comentava passagens
de sua obra e um pouco da vida de homens que aparecem no filme
Senta a Pua, e hoje são anônimos num país
de memória curta.
Pois foi lembrando dessa história, e após rever
parte das imagens que ele me deu do filme, que decidi escrever
esta crônica, fugindo do tema amor-paixão entre
os humanos, e resgatando o amor-paixão pelo próximo
e, mais ainda, pelo país. Quem tem o costume de gravar
a festa de entrega do Oscar, aos melhores do cinema mundial,
poderá comprovar isto que afirmo a seguir.
Madrugada de segunda-feira, dia 22 de Março de 1999.
Fim da transmissão da premiação, e o
Brasil não foi contemplado, apesar do inégavel
mérito que a nomeação ao prêmio
tem. Uma frase do locutor chamou-me a atenção:
" o Oscar continua sendo um grande convescote, em que
mais de um bilhão de pessoas assistem uma festa de
poucos, para poucos, repetindo o cenário de quando
tudo começou, em 1928".
Ganhar ou perder é natural em qualquer tipo de competição.
Mas, será que ele teria razão? Estaríamos
todos nós fazendo um grande papel de coadjuvantes,
espectadores de uma festa de poucos para eles mesmos? Qual
terá sido a razão para que, numa festa de artistas
e técnicos ligados ao cinema, seja chamado um ex-astronauta
e atual senador, John Glenn, para anunciar uma seleção
de imagens que lembram o domínio da tecnologia espacial
pelos Estados Unidos?
Será que foi com o mesmo sentido que o General Colin
Powell, comandante em operações de guerra, foi
convidado a apresentar cenas de dois filmes concorrentes,
lembrando a força bélica americana? E o luxo
e grandiosidade de toda a produção, não
parecem realmente enaltecer uma grande festa que ostenta demais,
principalmente num mundo cheio de carências e dificuldades,
às voltas com os desvarios da economia?
Já é notoriamente sabido que há uma relação
muito forte do cinema americano com a formação
da imagem dos Estados Unidos, tanto interna quanto externa.
Não é sem razão que a bandeira americana
aparece com freqüência em filmes, que músicas
típicas e hinos são tocados em longos e características
trechos, e que referências a valores nacionais são
encaixados em roteiros.
Com isso, o ideal americano é difundido pelo mundo
afora, colocando-o como uma referência, como modelo
para outras nações trilharem seus caminhos.
Aliás, o que eles fazem muito bem e nós fazemos
muito mal. Pior, e infelizmente, nos últimos anos,
temos recebido uma saraivada de mensagens e informações
através da mídia, induzindo que nossos valores
estão defasados num mundo ora globalizado. Por falar
nisto, e num jargão de marketing, a Internet agora
vem facilitar ainda mais esse esforço de fortalecimento
da marca dos países ricos.
Muito pouco se divulga do protecionismo das grandes nações
em relação ao comércio internacional,
e muito se exige para que haja abertura crescente de mercado
nos chamados países emergentes. O Brasil, que está
na mira dos grandes investidores, é um lugar que, como
ouvi recentemente, ainda tem lata de sardinha sem alça
e pacote de leite que não abre sem tesoura. Continuando,
as modernidades tecnológicas tão apregoadas
só aparecem na conveniência empresarial das grandes
empresas, e não para atender os consumidores. Quantos
itens ligados à qualidade de vida descobrimos no exterior
e não os vemos aplicados aqui.
Lembrei-me que, se há um bilhão de pessoas vendo
o Oscar, porque não temos parte disso vendo o desfile
de Carnaval da Sapucaí, em que os temas das escolas
de samba evocam valores brasileiros? Se as nossas televisões
transmitem as peladas futebolísticas da Espanha e Itália,
porque as de fora não transmitem as partidas do chamado
"melhor futebol do mundo"? Porque a NBA e seus astros
do basquetebol atraem mais atenção que os espetáculos
esportivos nacionais? Porque é tão raro ver
a cultura brasileira exposta no exterior?
Não querendo radicalizar, pois os orientais nos ensinam
que o ponto de equilíbrio não está nos
extremos, precisamos sentir um movimento nacional em defesa
de nossos valores, de nossas tradições, de resgate
das lutas e batalhas que nossa gente teve para construir um
Brasil grande, pátria na plenitude do termo. Não
estamos falando em acabar com os chamados programas mundo-cão,
mas sim em combater o próprio mundo-cão!
Caminhar para isso, latu-sensu, começa no exercício
diário até em nossas relações
pessoais, quando devemos repudiar a proximidade com os que,
sabida e claramente, andam à margem da lei e do bem
comum. Ainda mais, valorizar os símbolos nacionais
nos levarão, um dia talvez nem tão distante,
ao chamado resgate da cidadania, sem preferências ou
restrições, sem desrespeitar minorias. O momento
dos 500 Anos é significativo e fundamental nesse
processo.
Meus sonhos, grosseiramente expostos acima, poderiam servir
de roteiro para um filme. Talvez, parafraseando o Erik na
sua entrevista, poderia mirar-me no exemplo dos americanos,
que nunca perderam o domínio sobre sua criação
e exportação de cultura. Nesse "meu filme",
estaria sendo mostrado um grande convescote verde-amarelo,
onde se comentaria como muitas crianças foram tiradas
do trabalho degradante dos canaviais e pedreiras, e puderam
ingressar na escola, criando uma nova legião de brasileiros.
Nesse
convescote não se entraria de black-tie, mas a alegria
seria tipicamente nossa, com nossa música, nossa bandeira,
nossos princípios, nossa terra, nossa história
e nossa gente. Respeitada, com saúde e esperanças.
E nem precisaríamos receber uma estatueta para chegar
às lágrimas de felicidade...
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