De
pessoas e de deuses!
Imaginação!
Palavra
que estimula uma viagem virtual, ela motiva o exercício
da mente num vai-e-vem de imagens e expectativas que nascem
dentro da alma. Mas porque alguém deveria ceder aos
estímulos de uma simples fantasia lembrando do México?
Será que a realidade que conheci está servindo
como um alimento da minha imaginação?
As
imagens do México que eu conheci são de um instante
da história do país e, naquele momento, fizeram
parceria com a maneira que eu tinha de ver o mundo, jeito
de pensar que o tempo já deixou para trás. Mas
a imaginação nunca parou e sempre se mostra
mais viva!
Hoje,
o México que minha mente constrói se soma com
aquele de minhas lembranças. As notícias sobre
o país ajudam a manter vivas as recordações,
com as raízes racionais misturadas com os sentimentos
de fundo emocional. E que, tanto num caso como no outro, fixaram-se
na minha mente de forma permanente, sem mais qualquer dimensão
de tempo.
México,
país que carrega uma história plena de tradições,
mística e segredos milenares, tudo isso convivendo
com um povo lutador pelos princípios de liberdade.
País que sofreu, em finais do século passado,
um terrível terremoto em área urbana, fazendo
a população se unir no socorro aos necessitados
e, depois, na reconstrução de casas e prédios.
Foi
um cenário ainda de reconstrução que
encontrei quando visitei a Cidade do México. Caminhando
na região central da capital mexicana, eu pude perceber
que ainda havia muita coisa para ser refeita. Os rostos das
pessoas não tinham amargura ou desespero, mas sim vitalidade
e energia. Aquela gente estava unida na retomada do seu dia-a-dia.
De
uma sala de reuniões no último andar do prédio
mais alto da cidade, eu pude admirar o quanto o povo mexicano
é capaz de construir. Uma belíssima torre, sede
de uma das maiores empresas latino-americanas, serve como
marco de uma riqueza que está no solo mexicano e resgata
um contraste entre o passado e o futuro, entre a arquitetura
histórica e o modernismo. E aquele prédio mostra
sua solidez pelo fato de haver resistido, sem qualquer dano,
à catástrofe sísmica.
Nos
dias que lá estive, pude estar em contato limitado
com a vida de um país maravilhoso. Mas os fatos e as
imagens belas foram se acumulando em minha mente, não
só como fruto da imaginação, mas pela
beleza real e contagiante. Pela emoção que podemos
sentir perto dos sítios arqueológicos.
Ir
à cidade sagrada de Teotihuacan, para lá conhecer
as pirâmides do Sol e da Lua, passa a ser um momento
de incrível encontro interior. Lembro que, após
subir a Pirâmide do Sol, fiquei por muitos minutos tentando
imaginar como foram os rituais religiosos e espirituais realizados
naquela construção indescritível, com
seus mais de 65 metros de altura. Quantas pessoas não
trabalharam nessa magnífica obra de engenharia que
já existe há centenas de anos?
Lá
de cima, fiquei imaginando que os antigos habitantes do lugar
pensavam poder alcançar o astro-rei, tirar dele a luz
e a força interior. Fiquei pensando nas festividades
que reuniam pessoas em torno de uma celebração
religiosa. Idealizei o quanto gostaria que amigos lá
estivessem para, juntos, aproveitarmos aquele momento de pura
magia.
Caminhei
depois, calmamente, até o topo da Pirâmide da
Lua. Na volta, sentei-me numa pequena mureta para descansar
do esforço de subir e descer inúmeros degraus
que nos levam de baixo até o alto daquele monumento.
Outra vez, dei asas à imaginação, segurando
na mão algumas pedras e me perguntando o quanto de
história elas não poderiam contar, se a elas
fosse dado o dom de falar.
Quantos
trabalhadores colocaram seu suor para elevar essa construção,
e não conseguiram viver para vê-la pronta? A
imaginação vai longe e busca entrar no pensamento
de quem ali esteve, no passado, e viu a concretização
da obra. E ali perto, como um paradoxo, encontramos gente
comum ao redor, querendo motivar os visitantes a comprarem
lembranças que possam carregar para casa, levando parte
das fantasias e dos sonhos mexicanos para os amigos e familiares.
Por
várias vezes, perguntei a mim mesmo se foi ali que
nasceu a tradição mexicana de comemorar, em
exatos dois dias, a data celebrada à memória
dos mortos. Afinal, se Teotihuacan é o lugar em que
os homens viram deuses, conforme as crenças antigas,
será essa a razão para que as almas voltam e
celebrem o reencontro com a família?
No
retorno à Cidade do México, fui parando pelo
caminho e conhecendo mais segredos do país. Foi com
um misto de surpresa e curiosidade que bebi da água
de um cactus centenário, do qual os antigos indígenas
retiravam o espinho para usar como ponta para flechas e lanças.
Além disso, as fibras dessa planta servem de matéria-prima
à tecelagem.
É
incrível pensar em como esse conhecimento já
existia no povo, desde aquela época e nos mínimos
detalhes. Em minha casa ostento, como um troféu, exemplar
desse espinho e das fibras, bem ao lado do prato trabalhado
com símbolos da já desenvolvida astrologia asteca.
E
assim, o México de minha imaginação continua
sendo, cada vez mais, o exercício constante de pensar
na vida por detrás das imagens e lugares que eu conheci.
Um país que tem a sua capital como patrimônio
da Humanidade e outros lugares imensamernte agradáveis,
reunindo detalhes e atributos de uma cultura milenar.
A
alegria e a simpatia do povo mexicano eu pude, mais uma vez,
conferir nas touradas. Apesar de ser um espetáculo
incomum para um brasileiro, com o toureiro enfrentando o touro
numa luta de vida e morte, vale a festa popular, com os sorrisos
e a adrenalina que mexe com o corpo. Vale o encontro de casais
passeando, namorando e se divertindo juntos.
E
a imaginação voltou a trabalhar quando me transportei
para o corpo do toureiro, enfrentando a fera bravia sob os
aplausos da platéia. Ao final, como comemoração
de uma grande atuação, vejo-me lançando
um forte olhar para a bela mulher que me cumprimenta com um
sorriso e oferece uma rosa vermelha... Mas os gritos celebrando
um belo movimento do toureiro me trazem de volta à
realidade!
Essa
experiência foi tão contagiante, que me fez comprar
um quadro muito especial na saída da Plaza. Nele, a
figura do toureiro foi trocada pela de uma mulher nua, na
típica postura que envolve a torcida e tira os famosos
gritos de "Olé". Em minha casa, a cena continua
presente e permite pensar em muito mais do que a sensibilidade
do movimento. A imagem mostra, simbolicamente, o jogo da sedução.
Afinal, no embate dos sexos a mulher tem que saber tourear
o homem, muitas vezes ferido não pela bandeirilla,
mas pela flecha do Cupido.
Como
em qualquer lugar do mundo, há o centro de compras
para aqueles que têm mais dinheiro. E na Cidade do México
isso não seria diferente, com sua Avenida Massarique
e as lojas das grifes mais importantes do mundo. Não
longe dali, está a imperdível Zona Rosa, onde
o divertimento e a gastronomia fazem seu ponto certo.
Ah!
Que prazer sentar num restaurante e ter moças tão
bonitas servindo. Assim, o tempo passa melhor tendo uma Tequila
Oro para bebericar e um cenário tão belo e charmoso
à volta. Quanto a este momento agradável, eu
me reservo o direito de não expor demais o que se passou
na minha imaginação! Mas algo aconteceu, em
um dos restaurantes, que vale a pena relatar.
Fui
atendido por uma moça bonita, alegre e que foi muito
atenciosa na explicação sobre alguns lugares
interessantes para serem visitados na cidade. Sua voz meiga
e doce estimulava que fosse chamada pelas mínimas razões.
Ela era estudante, vinda de Guadalajara, e trabalhava como
atendente do restaurante para pagar suas despesas e estudos.
Quando a conta foi pedida, ela logo trouxe a nota, paga em
moeda mexicana.
No
Brasil, é comum a despesa já incluir a gorgeta,
que no idioma local é a "propina". No México
isso não ocorreu e o fato passou despercebido. Já
perto da porta, ela se aproximou com os olhos marejados e,
de maneira discreta, pediu para que eu fosse conversar com
o gerente. Ao perguntar o que estava acontecendo, fui informado
que ele gostaria de saber em que o atendimento dela não
havia me agradado.
"Ora,
mas você foi perfeita, muito amável!", disse
eu. E ela perguntou, então, porque não havia
sido deixada a "propina", como agradecimento. Com
o esclarecimento, e as minhas desculpas por eu haver desrespeitado
involuntariamente uma regra local, o problema ficou resolvido.
Ela voltou a mostrar o sorriso maravilhoso e encerramos a
questão com um gostoso abraço. Hoje, ao lembrar
do México, vem à minha imaginação:
por onde andará Carmem?
Será
que sentir saudades de um lugar é o mesmo que ter vontade
de lá voltar? Pois muitas vezes podemos querer reencontrar
o que ficou no passado e viver frustrações.
Só que a minha vontade de retornar ao país é
a de poder reviver momentos em que a música, a comida
e a alegria do povo se misturam, fortemente, interagindo com
gente bonita e contagiante.
Aliás,
Brasil e México são irmãos em muitos
aspectos, o que foi reforçado com a vibração
do futebol, em duas Copas do Mundo. Daí, Guadalajara
ser um cartão postal para os turistas, mas também
uma cidade muito especial para os brasileiros. E como um escritor,
nada melhor para mim do que poder unir a expectativa de ir
à Feira de Livros com a possibilidade de vivenciar
esse lugar tão charmoso.
Enfim,
aproximam-se Guadalajara e a Feira de Livros. Onde a imaginação
estimula resgatar experiências, misturando lembranças
agradáveis a idéias criativas e motivadoras.
Numa hipótese remota que faz parte desta nova viagem
virtual, Carmem agora estará em Guadalajara para indicar
os melhores lugares a serem visitados. A esta altura, formada,
não vai estar num restaurante, mas é maravilhoso
pensar que ela possa estar trabalhando com turismo ou literatura.
Irei
revê-la? Se for possível, vamos nos divertir
com aquela história da "propina" e de outras
que conseguirmos remontar após tanto tempo. E na volta
para casa, eu vou poder afirmar: basta imaginar o México,
com carinho e força de pensamento, e seu desejo se
realizará. Pois aquele é um país de homens
e de deuses, que tem a capacidade de alimentar cada pessoa
em todas as dimensões fundamentais: o corpo físico,
as emoções da alma e as crenças para
o espírito!
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