Das
imagens reais e virtuais
Recentemente,
num gostoso e descontraído bate-papo entre amigos,
perguntaram-me se algumas situações envolvendo
personagens de um livro que escrevi seriam ou não baseadas
em fatos reais. O desenvolvimento daquela conversa motivou-me
a escrever estes pensamentos.
É interessante como qualquer escritor faz um passeio
interativo, dinâmico e criativo por situações
que vão enriquecer e guiar o leitor ao longo de seu
texto. Esse exercício mental é que orienta e
guia o autor na montagem de um enredo baseado no cotidiano.
Mas, qual o ponto de partida? Onde vamos chegar? E se o personagem
tal fizesse isto em vez daquilo? E se tal coisa não
acontecesse assim, mas daquele outro jeito?
No final de um extenuante trabalho mental, eis que temos um
texto que contempla ingredientes possíveis, factíveis,
mas ao mesmo tempo frutos de uma imaginação
fértil. Tudo o que é chamado de ficção
poderia estar acontecendo na realidade, caso o destino assim
determinasse como o caminho natural para os personagens retratados.
Parte do que o escritor apresenta em seus roteiros ou romances
é, por incrível que pareça, expressão
de uma verdade possível. Que não se confunde
com realidade. É algo que, separado em trechos, pode
até ter acontecido na vida de alguém. No conjunto,
porém...
Não é por outra razão a preocupação
de acrescentar, em qualquer livro, a informação
de que se alguém se sentir projetado pessoalmente em
um personagem, isso terá sido mera coincidência.
Entretanto, esotéricos afirmam que na vida não
há coincidências. Podemos até imaginar
que a criatividade de um escritor, inspirado na natureza humana,
pode trazer ao seu texto passagens novas e desconhecidas para
ele, mas associadas a um momento peculiar na vida de um leitor
anônimo.
Note que estamos fazendo aqui um debate de idéias com
você, leitor. E como resultante deste debate que estamos
por concluir sem ele ter realmente existido, a história
de ficção, criada pela mente do autor, é
uma realidade possível, a qual não devemos ignorar.
Ela aborda verdades, mas por não ser a narrativa de
fatos, forma um conjunto de imagens virtuais que pode ter
se baseado em realidades possíveis e, conseqüentemente,
cria um elo com "verdades".
No final de uma história, se alguma passagem pareceu
ser muito viva ou conhecida, é porque o ser humano
e seus jogos de comportamento são a base de referência
para um escritor. Temos, porém, outra hipótese,
que não deve ser descartada: até que ponto a
história não retrata uma verdade possível,
mais próxima do leitor do que ele poderia imaginar?
São inúmeras as vezes em que uma história
começou, com o autor tendo uma expectativa de qual
seria o final, tendo sido levado a alterá-lo, surpreendentemente,
por conta do "livre arbítrio" dos personagens.
Eles tomam vida e personalidade. Nesse mistério das
vidas virtuais, criadas pela mente do autor, está o
segredo que faz do texto um prazer que não se deve
perder.
Cada um deve ter, na memória, contos ou histórias
que perturbaram, sacudiram com as crenças e emoções,
construíram uma ponta entre a realidade do leitor e
a ficção do autor. Ao pensar nisto não
devemos ficar com medo de nos entregarmos, de corpo e alma,
para viver minutos de amor, drama ou suspense, tempo em que
se estará na companhia de personagens que sabem muito
bem desenvolver um jogo de acontecimentos e mexer com a emoção.
Mesmo porque alguma passagem de sua vida real poderá
ter inspirado o autor, sem mesmo você saber disso...
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