A
paixão é uma arte da vida
Ao
longo dos meus anos de lágrimas e sorrisos, por vezes
tormentas e gargalhadas, e que completaram suas "bodas
de ouro", fui desenvolvendo um especial interesse pela
forma como os artistas tratam da paixão em suas obras.
Além da óbvia satisfação que existe
quando identificamos qualidade em uma produção,
seja pelo seu aspecto literário, quando é o
caso de um texto, ou pelas características do efeito
plástico, quando incorpora som ou imagem, a percepção
de uma inevitável relação do criador
e criatura também é apaixonante.
Tenho a plena convicção de que só um
ser que viveu a paixão de forma intensa, nas entranhas,
sentindo a firme sensação de ter a carne rasgada
e a alma destroçada, terá capacidade de dar
o tom de verdade a uma obra em que esse sentimento humano
tão forte se mostre presente. Nas cores e nas formas!
Em artigos anteriores, neste mesmo jornal, fizemos algumas
referências ao complexo sentimento da paixão,
e pretendemos sempre agregar outras mais, como agora. Numa
outra oportunidade futura, talvez, ao invés de tomarmos
por base nomes conhecidos do mundo das artes, iremos recorrer
a histórias do mundo político, mas aí
a arte será outra...
Há um diretor jovem, de imenso sucesso no cinema internacional,
que tem uma tese fantástica, a qual acabei de lembrar
depois de escrever "mundo político". Pedro
Almodóvar defende que o sexo é a mais "democrática"
alegria que a natureza nos deu, pois depende de cada um obter
sua satisfação, sendo que o desejo iguala todas
as pessoas. Para ele, ser um humano é fazer valer a
lei do seu desejo.
Completando, ele entende que o sexo sem amor, mas impulsionado
pelo desejo, é bom e higiênico, mas quando coincide
com a paixão... Ah, não existe combustível
mais potente. Alguém com esse sentimento, é
claro, irá transmitir, na sua produção,
a energia, o clima, o sentido e a amplitude da paixão
aos personagens que dirige.
Esse sentimento, forte e dominador, aparece retratado em muitas
obras escritas, e nem sempre é fruto da ficção
criativa de um escritor. Santo Agostinho, um dos muitos e
conhecidos pensadores da Igreja, tornou-se um apaixonado pela
paixão. Vejam que não sou o único!
Apesar de defender que o corpo parece uma fera a ser dominada,
e ser um preconizador da moral, no texto Confissões
ele se dirige a Deus da seguinte forma:
Rogando a Vós, eu dizia, dai-me a castidade e a
continência, mas não hoje, pois temia que atendêsseis
de pronto meu pedido, e que me visse curado depressa demais
dessa doença que é a luxúria, que desejava
ver aplacada, mas não extinta..
A paixão vivida é o roteiro, a matéria-prima
e a sustentação do trabalho de muita gente,
incluindo aqueles que são conhecidos por outros sucessos
e circunstâncias. Querem um bom exemplo, entre tantos?
Quem nunca ouviu falar das fábulas de La Fontaine?
Texto inocente, filosófico e puro, não é?
Pois em pleno século XVII, a vida tempestuosa do autor,
que viveu os privilégios da Corte acalentado pelas
carícias de Madame de La Sabliére, levou-o à
conclusão de que só quem vive o prazer e a beleza,
elementos vivos da paixão, pode chegar à verdade
de si próprio.
No final de seu livro Amores de Psiquê e Cupido, que
nada tinha de fábula, o autor convida Volúpia
a morar com ele, pelo menos por um século, e usou as
seguintes palavras:
Amo a diversão, o amor, a música e os livros,
a cidade e o campo, enfim, tudo. Não há nada
que não me seja um soberano bem, nem mesmo o sombrio
prazer de um coração melancólico.
A paixão parece não ter senhor, pois ela
faz escravos, que não reclamam nem um pouco da intensidade
do prazer, enquanto ele existe. E esse momento de energia
plena e vigor absoluto parece não ter fim, nem se encerrar
numa vida terrena. Os apaixonados gostariam de se reencontrar
na outra vida e permanecerem juntos.
Como ultimamente temos feito, a cada artigo, uma ode à
mulher, vamos encerrar estes comentários resgatando
um texto da poeta Neide Archanjo, grande amiga e incentivadora
de primeira hora.
Penso que se a paixão existe entre dois seres, a natureza
se responsabiliza pela união da carne e os céus
pela da alma. E ambos vivem suas emoções, assim
retratadas pela Neide:
Paisagem é tudo aquilo que pode ser observado; as
árvores, o que não é humano, o homem
arcaico e certos seres que não são para si.
Os amantes são pura paisagem...
Lindo, não é?!
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