Quitutes, mulheres e imortais!

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Crônica publicada na edição especial do Jornal de Letras, em homenagem a Jorge Amado, quando de seu falecimento.

 

Quitutes, mulheres e imortais!

 

Sábado de primavera, aquela linda dona de casa confere o horário em um relógio preso à parede da cozinha. Passavam dez minutos das 9 horas da manhã.  Flor, além de excelente quituteira, chamava a atenção dos homens pelo rosto meigo e redondo, com belas covinhas, e um corpo muito bem servido de carnes.

Começava a ficar aflita, pois duas amigas estavam atrasadas para tomarem café e comerem do bolo ainda quente para depois, as três juntas, irem à missa de trigésimo dia da morte de um amigo muito amado, chamado Jorge. Toca a campainha e, mal a porta é aberta, vai entrando a moleca da Gabriela.

Também cozinheira de mão-cheia, ela reconheceu o cheiro gostoso de um quitute de fubá e nem se constrangeu em experimentar antes de ser convidada. Enquanto se deliciava com aquele sabor tão familiar, Gabriela já foi se desculpando com a amiga:

- Flor, não briga comigo pelo atraso. Foi o ônibus que quebrou vindo de Ilhéus.

- Agora só falta a Tieta! – lembrou a anfitriã.

- Ah! Eu estava esquecendo de contar. Ontem, ela mandou uma pessoa levar um recado no bar do seu Nacib e avisou que não vai aparecer. Está com algum problema no Agreste. Aí você já sabe, prosa vai, prosa vem...

- Mas se a ideia de mandar rezar essa missa foi dela! - exclamou Flor.

- Quem consegue entender! Tieta disse que precisa viajar amanhã para as bandas de São Paulo... Parece que tem que encontrar um industrial, eu sei lá!

Gabriela falava e comia do bolo, com os belos olhos brilhando de prazer. Sentada, Flor acompanhava a amiga, servindo mais um café para as duas. Disse:

- Acho melhor a gente ir andando, prá não se atrasar... A missa foi marcada para as 11 horas. No caminho fiquei de encontrar Dorotéia e Marialva, que também fazem questão de ir na igreja homenagear nosso amigo.

Flor deixou um bilhete para o marido, que havia saído bem cedo para ir à farmácia. Ele prometeu encontrá-la ao final da missa e, certamente, Teodoro iria cumprir a promessa. Flor e Gabriela sairam para a rua, encontraram as duas vizinhas e passaram a formar um conjunto de belas e desejadas mulheres, cada uma ardente a seu jeito, e todas com muitas histórias de prazer bem vividas.

Chegaram ao Nosso Senhor do Bonfim, um templo católico centenário e histórico de Salvador. Elas se surpreenderam com a igreja superlotada. Afinal, o amigo Amado era muito querido, não só pelos vizinhos de Rio Vermelho, mas pelos baianos e brasileiros de todos os cantos. Cumprimentaram alguns conhecidos na entrada, como Pedro Arcanjo, Mirabeau, Guimarães, Wilson e, em especial, viu um simpático senhor sentado no chão.

Flor havia sido apresentada a ele por Vadinho, tempos atrás, e ela nunca entendeu porque o Seu Joaquim Cunha largou o emprego e a família para vagabundear pelas ruas. Também estranhava o seu apelido curioso.

- Esse é um homem querido por tudo que é gente da boemia! – comentou Flor para as amigas, com insuspeito ar de reverência. Eu sei que Vadinho e Quincas bebericaram várias vezes pelos botequins da vida.

Flor cumprimentou o homem, que por todos era conhecido como Quincas Berro D'Água, e voltou a caminhar com as amigas.

- Interessante, acabei de lembrar de Teresa Batista e da Rosa de Oxalá. – falou Dorotéia. Será que estão na missa?

- Deixa que eu vou procurar por elas! – exclamou Gabriela.

Naquele amontoado de pessoas, misturavam-se ricos e pobres, intelectuais famosos e anônimos, capoeiristas e quituteiras, políticos e artistas, enfim, gente de todos os tipos, crenças e origens. Amigos unidos num momento de energia, lembranças e tristeza.  E a expressão de Saudade, sem qualquer pieguice, é o que poderia resumir o que se passava no coração e na mente dos presentes à missa de Jorge.

A cerimônia estava perto do momento da comunhão quando Gabriela voltou a ter com Flor, num lugar próximo ao altar. Elas se surpreenderam com a chegada esbaforida de Tieta. Com impecável roupa justa, de fundo branco e alguns detalhes em azul, ela estava muito bem produzida. A baiana em nada lembrava alguém que acabara de chegar do interior. Gabriela cochichou:

- Que foi? Você me disse que não poderia aparecer!

- Eu me virei como pude, deixei Leonora cuidando dos negócios, mas decidi que não iria faltar de jeito algum. Afinal, assim como vocês, também devo minha vida ao amigo que viemos homenagear.

A missa acabou, e a igreja foi ficando vazia. As pessoas saiam tristes e cabisbaixas, algumas com lágrimas nos olhos. Cada uma, a seu jeito, curtia a saudade aguda. As três amigas se despediram de Zélia, companheira de lutas do amigo Jorge, e aguardaram mais um pouco, de mãos dadas. Até que se levantaram e andaram em direção à porta principal. Uma perguntava as angustiava: E agora, como será o nosso futuro sem ele?

- Será que nosso mundo vai mudar daqui prá frente? – perguntou Flor para Tieta, acompanhada pelo olhar instigante de Gabriela.

- Não sei, realmente, não sei. Nosso amado criador se foi, os seus personagens se dispersaram e eu... eu não sei o que pensar!

Como que em um relance, percebem a presença de uma mulher diferente, desconhecida, ainda sentada em um banco, ao fundo da igreja. Uma expressão também triste, mas equilibrada na demonstração de suas emoções. Ela levanta o rosto e olha fixamente para as três amigas, que param e devolvem o olhar com expressões de incrível curiosidade.

Flor, Tieta e Gabriela ainda se questionavam sobre o futuro, sem o amado Jorge, e algo lhes dizia que teriam ali a resposta. Tieta, desinibida, pergunta então à mulher:

- Você conhecia o Jorge?

- Pessoalmente não. Eu sou de outro lugar, de outra época, mas precisava vir aqui para falar com vocês.

- Qual seu nome? – arrisca Gabriela.

- Capitu.

- E o que você quer nos dizer?

- Quero responder essa dúvida que envolve o coração e a alma de vocês!

As três amigas se entreolham, espantadas com o que ouvem. O mundo sem Jorge parece assustador, iriam elas conseguir sobreviver? Foi quando Capitu, olhando fixamente em seus olhos, disse com um carinho:

- Meu criador, Machado de Assis, morreu há muito tempo. Mas permanece vivo para o mundo através das histórias que criou, das fantasias que eu e todos os seus personagens representamos. Quantos, até hoje, não se perguntam se eu traí ou não o meu marido?

- E traiu? – pergunta Flor, não conseguindo conter a curiosidade.

Capitu sorri e, fingindo não ter ouvido a pergunta, completa:

- Vocês terão, para sempre, a responsabilidade de manter vivo o amigo Jorge. As histórias irão alimentar as fantasias das pessoas, os personagens farão parte de mundos distintos. E Jorge não morrerá jamais. Vocês é que irão conseguir isso e, portanto, sigam seus destinos como se nada tivesse acontecido.

Ao terminar a frase, Capitu cumprimentou Flor, Tieta e Gabriela com um maneio de cabeça. Virou-se e saiu, desaparecendo logo depois. As três sorriram, entenderam o recado, e se despediram também. Dali a pouco, Gabriela estaria no Bar Vesúvio, fazendo Nacib se deliciar com sua pele, gosto de cravo e cheiro de canela. Tieta apressou-se a viajar para retomar seus contatos, amores e segredos.

Dona Flor encontrou os seus dois queridos amigos na porta da igreja, como estava combinado. Deu o braço direito a Teodoro Madureira, vestido com seu terno claro, gravata e chapéu. Vadinho, à esquerda, desfilava nu para os olhos únicos da mestiça cabo-verde, tímida e ousada só com ele. A caminho de casa, para um delicioso almoço de sábado, recomeçava ali um novo ciclo de vida para o trio.

E tal como Dona Flor e seus dois maridos, a partir de então, todos os personagens do amado Jorge estão totalmente comprometidos com a imortalidade. Imortalidade deles todos, de cada um em particular e, mais importante, da vida eterna do amigo que foi contar histórias lá no Céu!

Mario Divo é escritor (www.mariodivo.com.br)